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Antonio Callado e Otto Lara Resende
Todo mundo gosta de elogios, mas esquece que não se pode depender
demais deles e que eles dependem de quem os faz. Não há
o menor sentido em se vangloriar do confete jogado por medíocres
ou em se abater pela crítica disparada por recalcados. Mesmo assim,
em profissões que "fazem nome" é muito comum ver
até talentos de primeira grandeza oscilarem demais ao sabor dos
adjetivos alheios. O que se pode aprender com a experiência é
discernir o elogio que realmente faz bem à auto-estima - para usar
esta palavrinha cada vez mais posta de fachada para delírios de
aceitação social plena. Eu, pessoalmente, gosto mais quando
elogiam minha lucidez ou coragem do que quando me qualificam com hipérboles.
Mas me lembro especialmente de dois gestos simples, tão simples
que às vezes fico pensando se não exagerei seu significado,
os quais considero elogios restauradores.
Um foi ao final de uma conversa de mais de uma hora por telefone com Otto
Lara Resende, que nunca conheci pessoalmente. O papo começou como
uma entrevista sobre a reforma ortográfica que Antonio Houaiss
pretendia fazer e logo passou para uma conversa intensa sobre literatura
e jornalismo. Depois do convencional "tchau, um abraço",
Otto alertou: "Estou te lendo, Piza, estou te lendo". O outro
elogio não foi nem sequer verbal. Colunista da Ilustrada, onde
eu trabalhava (na época, como editor-assistente), Antonio Callado
vinha periodicamente para um almoço com a direção
da Folha. Numa dessas vindas, desceu à redação, cumprimentou
o editor, Alcino Leite Neto, e perguntou por mim. Alcino apontou e Callado
apenas sorriu para mim e abriu os braços, me chamando em silêncio
para um abraço que eu, intimidado e satisfeito ao mesmo tempo,
fui dar. Conversávamos sempre por telefone e ele de vez em quando
comentava textos meus (referiu um deles em sua coluna, sobre Eça
de Queiroz), mas nada se comparou com aquele abrir de braços. Curiosamente,
tenho até hoje um fax que Callado me passou se queixando da edição
de uma coluna sua - edição que, digo logo, não foi
feita por mim - e cujo "P.S." era justamente um elogio a uma
matéria sobre, sim, Otto Lara. Matéria que tratava de um
encontro que Callado, Janio de Freitas, Moacyr Werneck de Castro e Antonio
Candido haviam realizado em homenagem a Otto, morto em 1992.
Callado morreu em 1997, pouco antes da morte de Paulo Francis. Notei alguns
anos depois que os dois, apesar das posições políticas
opostas no final da vida (Callado cada vez mais nostálgico da "aventura"
soviética, Francis chegando ao ponto de elogiar Maluf e dizer que
"poderia viver sem democracia, mas não sem liberdade"),
pertenciam ao mesmo mundo, um mundo urbano e cosmopolita, do Rio dos anos
50 à Londres do teatro shakespereano e à Nova York das revistas
intelectuais, um mundo habitado por mulheres charmosas e independentes,
por polêmicas ideológicas, por livros e viagens. Ambos foram
presos pelo regime militar, e há aquela famosa história
do sujeito que não sabia por que tinha sido preso até que
contou qual era seu nome: Antonio Callado - um homônimo... Mas,
além das diferenças políticas, eles eram muito diferentes
como autores. A sofisticação de Francis aparecia mais nas
citações que ele fazia; a de Callado, na própria
sintaxe. O uso das vírgulas por Callado era uma beleza, dava uma
cadência saborosa à leitura, ia puxando o leitor pela mão
com muita cortesia, com a mesma classe que o vejo encarnando de braços
abertos em minha memória daquele dia.
Nelson Rodrigues o chamava de "doce radical" e de "o único
inglês de verdade", mas claro que Nelson, que se dizia reacionário,
estava exagerando ao chamá-lo de radical: Callado era um socialista
"light", diríamos hoje; mais sonhador que utopista, movido
mais a compaixão que ideologia. E isso dava ao seu texto uma combinação
atraente, um humanismo lírico, refinado, que estava longe das frases
incisivas e carbonárias de Francis e Nelson, mas que também
jamais ficava em cima do muro, mesmo num período pós-muro...
Otto, por exemplo, era muito menos explícito em suas opiniões,
ele que trabalhou na Rede Globo e escrevia também de forma lírica
e refinada - se bem que na polêmica sobre Dom Casmurro não
deixou nada implícito, foi logo concordando com Dalton Trevisan
que Capitu traiu sim. Em pessoa, por telefone ou na palestra transmitida
em telão no dia da homenagem, Otto era divertidíssimo, uma
máquina de tiradas e sacadas, enquanto Callado era, não
calado, mas de um papo mais ameno, mavioso como sua prosa.
E a literatura, a literatura que eles amavam mais que tudo. Callado foi
dos poucos, como Candido, a enxergar a grandeza do romance de Otto Lara,
O Braço Direito, tão sensível e forte, tão
bem escrito, com aquela capacidade tão rara de conjugar a memória
de sua experiência individual com a transposição para
outra personalidade, a do narrador do livro. Callado escreveu que se trata
do romance "mais católico-apostólico-romano" da
literatura brasileira, e é mesmo. Mas nem por ser agnóstico,
como bom "radical", estava surdo para o murmúrio poderoso
do romance de Otto - para não falar de seus contos, repletos de
criações lingüísticas e imagens memoráveis.
Não sei o que Otto achava dos romances de Callado, mas é
difícil não respeitar a ambição de Quarup
e a melhor ficção feita sobre a geração do
AI5 (que Francis não me ouça), Reflexos do Baile. Lembro
também quando a TV Globo adaptou seu A Madona do Cedro e, ao telefone,
ele reclamou para mim do desvirtuamento da história, convertida
- como era de esperar -- em drama de folhetim. Ambos ficcionistas merecem
reavaliação crítica urgente e abrangente.
Otto e Callado amavam também o Brasil, que muito ajudaram como
jornalistas e escritores, e eram essa figura rara, a dos estilistas, uma
linhagem que vem de Machado de Assis, passa por Graciliano Ramos e Rubem
Braga e depois chega a eles. No Brasil, sempre injusto com os que o amam,
estilista é sinônimo de alguém que pratica firulas
verbais, que faz volteios para dizer o que poderia ter sido dito de forma
mais simples. Nada disso. Um estilista é alguém cujo texto
pode ser identificado mesmo sem a assinatura. Façamos então,
agora, um minuto de silêncio e pensemos em como éramos felizes
- éramos felizes e sabíamos - em ter Otto e Callado escrevendo
naqueles anos.
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