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Aforismos sem juízo
"O desejo é sempre a primeira e a última prova de amor."

     



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Tchecov, o médico e o misógino
fonte: Gazeta Mercantil 24 de abril de 1998
Não há a menor razão para se espantar com o fato de que a obra de Anton Tchecov (1860 - 1904) esteja em tanta evidência no Brasil e no mundo. Sua grandeza como escritor está justamente em ser bastante atual e bastante maleável, sendo também sutil e consistente para resistir a distorções de toda espécie. Num mundo em que as ideologias sistemáticas perderam a força, em que as tais confusões de identidade e as dificuldades de classificação perturbam idealistas e iludem pragmáticos, sua obra marcada pela capacidade de sugestão e síntese precisa ser lembrada sempre que possível. No Brasil suas peças têm recebido montagens cada vez mais freqüentes - como "Tio Vânia" e "Ivanov", em cartaz em São Paulo (leia críticas nesta página), e a aguardada versão de "A Gaivota" que terá a altitude de Fernanda Montenegro - e o mesmo ocorre em diversas capitais do mundo, a começar por Moscou. Agora uma biografia magistral é lançada nos Estados Unidos, de autoria do professor de literatura russa
Donald Rayfield, e pode-se ficar sabendo um pouco mais sobre o gênio mais
despojado que a literatura conheceu.
Despojado, claro, não quer dizer desprovido de sofisticação - e sim, no
caso, exatamente o contrário. Rayfield não se concentra em analisar os
livros de Tchecov, mas sua biografia é interessante por limpar a lente
através da qual o autor tem sido olhado neste século. As imagens
dominantes de Tchecov diziam que se tratava um autor lírico, observador
clínico e delicado da natureza humana, ou de um quase expressionista, a
pintar vidas vazias, tão angustiadas que nem conseguem expressar sua angústia. O que Rayfield mostra é que Tchecov não era nenhuma dessas coisas - ou podia ser ambas. Podia ser frio como um bisturi, mas terno como um cobertor. Também podia parecer simpático, mas estar irritado e desesperado com o gênero humano. Tal combinatória paira sobre sua obra, e é sinal de sua percepção aguda o fato de que Tchecov a sustentou com tanto brilho, sem espalhafato, sem falsa modéstia ou falso cinismo. (Tchecov é a grafia adotada no Brasil pelo professor Boris Schnaiderman, tradutor de "A Dama do Cachorrinho e Outros Contos". Há quem escreva Tchekhov, Tchékhov, Chekhov, etc. Esta última grafia é a adotada em inglês).
O grande mérito de Rayfield - sendo a sua uma biografia não-crítica -
está em mostrar o contexto pessoal e histórico em que Tchecov amadureceu.
Ele está longe de ser o homem amável, suave, impecavelmente tolerante, que
se imagina normalmente. Era impaciente, irritadiço até. Não tinha o menor
traço de sentimentalismo, o que fazia as pessoas o considerarem desalmado
ou duro demais por vezes. Trabalhava muito e era amolado constantemente
por outros, pois, sendo médico e escritor, atraía pedidos de ajuda, fiado,
indicação e consolo que nem mesmo Jó suportaria. Chegou a escrever numa
carta: "Tenho tanto trabalho a fazer que não me sobra tempo nem para um
pum silencioso". Isso decididamente não combina com o bom-mocismo que lhe
atribuem. Sentimos no livro, sobretudo, a Rússia como país grande e
subdesenvolvido que é, uma sociedade onde público e privado se superpõem e
se atrapalham, atada por laços familiares passionais e uma cultura
burocrática instituída há gerações. Independente, levando adiante duas
carreiras difíceis para garantir sua sobrevivência, Tchecov faz o que pode
para não ter de se submeter a grupelhos e concessões. Como se vê, sua
biografia não tem interesse apenas local.
Boa parte do livro se dedica a suas relações com mulheres, e não há por
que reclamar. Elas têm presença marcante em sua obra e, felizmente,
Rayfield nos poupa das especulações subfreudianas que costumam infestar o
gênero. O fato é que Tchecov parecia ser quase um misógino, leitor de
Schopenhauer, e isto tem chocado muitas resenhistas da biografia. Para
resumir, ele tinha um pé atrás em relação ao envolvimento com as mulheres
e, bonito e inteligente, elas andavam bastante atrás dele. Em seu ponto de
vista, relações românticas colocavam muitos obstáculos à liberdade do ser
humano - homem ou mulher - e também, claro, do artista. Logo, ele só
queria saber de casos leves e ligeiros, sem paixões obsessivas, sem
exageros emocionais. Isso não significa que só buscasse sexo no chamado
sexo frágil; ele não caía era em mitos como este. Era ciente de que a
maioria das mulheres - como a maioria dos homens - confunde intimidade com
intimação, esperando do parceiro uma devoção perene e perfeita, a
preencher o oco alheio com a mera repetição de clichês verbais ou
gestuais. Tchecov, em suma, era muito criativo e maduro para gostar desse
tipo de rotina, para aceitar ser vigiado por quem quer que fosse. Mas nada
disso o faz um bruto ou calculista. É só em tempos de vulgaridades
românticas enaltecidas dia e noite - como o atual - que um homem como ele
termina rotulado de misógino, interessado apenas em mulheres fictícias. Se
a questão fosse essa, seria menos impreciso rotulá-lo de misantropo.
Homens ou mulheres muito inteligentes, para quem não sabe, sofrem por ser assim numa humanidade composta em sua maior parte por ignorantes, carentes
ou, como não?, por burros irrecuperáveis. A irritabilidade de Tchecov vem
do simples fato de que é difícil para ele adaptar-se a um habitat tão
hostil. Rayfield cita muitas cartas - decisão acertadíssima - que iluminam
o homem. Ele não tem muito apreço nem pela elite nem pelas classes média e
baixa. Mora num país em que a censura e a pobreza prejudicam as duas
atividades que escolheu para exercer. Conquista as mulheres, mas não
estende seus relacionamentos; se casa com a atriz Olga Knipper, depois de
muita relutância, aos 41 anos, já doente e melancólico, e não a deixa ler
seus manuscritos, por exemplo. Tenta manter um pouco de paz e um monte de
lucidez em meio à histeria de seu país. Acompanha as inovações do Teatro
de Artes de Moscou, viaja para a ilha de Sakhalin para relatar as
condições subumanas dos prisioneiros, colabora na construção de escolas e
clínicas, atende a uma miríade de doentes e parentes necessitados - leva,
enfim, uma vida estressante, dedicada a ajudar e entender os outros, sem
no entanto perder o juízo com diplomacias hipócritas ou qualquer conversa
fiada sobre compaixão ou solidariedade. É um homem de ação e reflexão, não
de "esperanças".
É justamente esse antidiscursivismo o que admiramos em sua obra. Tchecov
acreditava na brevidade como forma de ser sugestivo e incisivo ao mesmo
tempo. Daí a força de suas peças e de seus contos, para não falar de seus
esquetes como "Camponeses" (1897). Como se vê no texto traduzido abaixo,
retirado de edição especial da revista "Harper's", Tchecov conhece a
retórica tradicional, da qual parte para subverter com elipses e
reversões. Sua maneira de reagir aos outros e ao acaso é peculiar, muito
própria para que sua época o entendesse com abrangência. Ele reconhece sua
humanidade no outro, mas nem por isso se sente obrigado a não lhe dizer o
que pensa nem a querer mudá-lo radicalmente. Não raro seus contos terminam
em aberto, sem clímax ou anticlímax, e isso também não significa que ele
fique em cima do muro, alienado, como se a arte fosse apenas um exercício
de espelhamento da vida. Há, em outras palavras, um tônus crítico - quando
não satírico, especialmente ao retratar as mulheres (repita-se: pelo mero
fato de ser homem, isto é, de sentir vontade de partilhar intimidade com
elas) - acentuado em sua obra, sob a escrita esguia e clara que a reveste.
Foi, em suma, essa faculdade de ser empático e distanciado, na vida e na
obra, o que o fez tão inovador. Sua literatura é fluente, mas não
descritiva; é irônica, mas não acerba.
"A Gaivota", que compõe com "Tio Vânia", "As Três Irmãs" e "O Jardim das
Cerejeiras" seu magnífico quarteto dramático (escrito entre 1896 e 1904),
é uma peça localizada exatamente nessa encruzilhada. São quatro
personagens centrais - duas atrizes e dois escritores, de duas gerações
diferentes e dois sexos diferentes - encontrando-se e desencontrando-se no
correr de quatro atos, com um intervalo de dois anos. Tantos números dois
não estão aí por acaso. A atriz velha inveja a atriz jovem, que se fascina
pela fama do escritor velho e não se importa com o amor do escritor jovem.
Tchecov nos joga num drama dialógico mas, ao contrário de Shaw, não é
dialético e, ao contrário de Ibsen, não é melodramático. Sentimos que ele
pode se identificar com qualquer um dos quatro personagens, além do médico
que a tudo observa e inclusive com o desprezo da jovem atriz pelo jovem
escritor. Rayfield descreve como a peça nasceu da relação frustrada de
Tchecov com Lidia Avilova, cuja possessividade o afastou. Mas devemos a
ela, claro, a realização dele como escritor, porque dali em diante (1895)
só viriam obras-primas.
"A Gaivota" é triste, mas não é sinistra. Tudo corre com uma mescla
impressionante de intensidade e suavidade, como se Tchecov nos dissesse
que a vida sempre se apresenta para nós em forma binária, embora sua
essência esteja além ou aquém de nossa apreensão. Dele até Kafka - ainda
que este adote a estratégia alegórica - há uma linha direta, mal percebida
até hoje. Não há desculpa ou justificação em Tchecov, e é por isso que
montar suas peças exige sintonia fina. Tudo parece simples, mas se evade;
a história primeiro ocorre como farsa, depois como tragédia, e aí pode ser
farsa de novo. Não se pode exagerar nem nos silêncios nem nas inflexões;
não se pode ir demais para o prosaico nem mergulhar muito no poético; um
equilíbrio dinâmico deve sublinhar as encenações, porque é assim a
existência humana segundo ele. O renovar é um fato da vida, sem atributo
moral em si.
Por isso Tchecov nos fala tão diretamente. Como artista, é capaz de nos
colocar na pele de cada personagem sem nos fazer esquecer de que aqueles
são personagens. Tampouco precisa interromper a história para causar esse
efeito, já que tal recurso acrescenta um esquematismo que não é real. E o
real é sutil em Tchecov. Dos grandes escritores russos de seu século, um
pretendia esgotar as complexidades (Dostoievski), outro queria
conciliá-las (Tolstói) e um terceiro racionalizá-las (Turgueniev); Tchecov
se limitou a esboçá-las. Como ele mesmo, médico e escritor, bondoso e
misógino, sua obra contém mas não detém os contrários. A exemplo do que
ocorre em seu conto "O Duelo" (eis a dualidade de novo), não há uma
"verdade real" resultante do conflito, nenhum fecho ou desfecho. A única
certeza é a volta do talvez. Anton Chekhov - A Life, de Donald Rayfield
Henry Holt, 674 págs., US$ 35.