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| DANIEL PIZA: UM JORNALISTA DE IDÉIAS |
| fonte: entrevistas |
01 de julho de 2001 |
Espécie rara no jornalismo, o homem de idéias faz falta nos jornais e revistas. Daniel Piza é um desses indivíduos que diferenciam uma Redação. Editor-executivo do jornal O Estado de São Paulo (onde assina a coluna Sinopse aos domingos) e colaborador da revista Bravo!, Piza é um homem inteligente, culto e loquaz. Expõe idéias com clareza e profundidade. O prazer dos seus textos tem-se na mesma medida em uma boa conversa. Jornalista por vocação, Daniel Piza já passou pelas redações da Folha de S.Paulo e do próprio Estadão e foi editor do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil, uma publicação diferenciada no jornalismo brasileiro e que provou a viabilidade de realizar jornalismo cultural de qualidade, com reflexão, interpretação, crítica e textos longos e bem escritos. Piza pode ser interpretado como arrogante ou elitista, mas passa longe disso. É um homem de idéias, que as defende sem virulência mas com convicção, sem discursos mas com argumentos. Na era do marketing, em que se quer o espetáculo, ter idéias e expressá-las pode parecer algo estranho, incompreensível. Daniel não teme o julgamento limitante de um tempo carcomido pela vulgarização. O prazer solitário do pensamento é compensado pela resposta do público. Sim, as coisas bem-feitas atingem a alma do leitor. "Sempre achei que fosse ser meio 'marginal' e no entanto escrevo em lugares ditos nobres, faço TV e tudo mais", diz ele, impressionado com a resposta dos leitores. Pensar já pode ser raro, mas é ainda fundamental para o projeto civilizatório humano, para nos distanciar do boçal das origens. Expor essas idéias com clareza é um mérito, quase um Dom. E essa é a característica mais eloqüente de Daniel Piza. Como ensina o sociólogo francês Edgar Morin, os processos revolucionários, as grandes transformações, iniciam-se sempre pela mudança de postura nas idéias e convicções dos indivíduos. É preciso alguém que ouse enfrentar a massa, o mediano, a moda. Alguém que produza um grito de sutileza em nome do novo. Assim que as coisas iniciam: com a coragem do indivíduo. As idéias, dessa forma, deixam de ser elemento acessório. Passam a assumir papel fundamental na estrutura do conhecimento e da vida social. No jornalismo brasileiro contemporâneo, Daniel Piza é um pouco isso, apesar de não se fazer notar pelo envolvimento em bate-bocas ou polêmicas que quase sempre despencam para os ataques pessoais. Ele é um jornalista com idéias, disposto a fazer dessa arte-profissão um instrumento mais eficaz e menos preso ao relato, muitas vezes burro, simplório e obnubilado, dos fatos. "Um jornalista precisa ver processos, compreender a realidade, antecipar tendências", ensina. Autor de Senhoritas de Nova York, obra de literatura juvenil mas com uma mensagem universal, e de Questão de Gosto, compilação de artigos publicados em jornais e revistas, organizador da obra Waaal - O Dicionário da Corte de Paulo Francis, livro que reúne as idéias do jornalista morto em 1997 em pequenos textos organizados alfabeticamente, e tradutor de A Máquina do Tempo, de HG Wells, Daniel Piza é um dos mais produtivos e competentes críticos culturais da imprensa brasileira na atualidade. E esse é um motivo mais que justificado para ouvirmos suas idéias. Nesta entrevista, ele fala de jornalismo e jornalistas.
Pergunta: Que análise você faz do jornalismo brasileiro contemporâneo? Daniel Piza: Acho que está ruim. O governo FH causou um efeito ambíguo. Num primeiro momento, os jornais falaram assim: mudou a agenda do país. Não devemos fazer mais um jornal que vem de Brasília, só com o índice de inflação, o que o Sarney falou sobre não sei quem, política e economia voltadas para a numeralha oficial, das declarações e do disque-disque político. A imprensa achava corretamente que o governo FHC iria esvaziar um pouco a cobertura nesse sentido: no momento em que não existe inflação em grande proporção e com uma sociedade querendo dar um salto de maturidade, querendo o fim da corrupção historicamente evidente e flagrante, haveria espaço para outra pauta, mais ampla. Mas a imprensa errou nessa avaliação. No Brasil, a sociedade depende muito dos atos do governo, para o bem ou para o mal, e a corrupção e o populismo não morreram. E não vão morrer tão cedo e nem sequer ocupar um segundo plano tão cedo. Vão dominar por muito tempo a política brasileira porque a nossa qualidade democrática é reduzida, nosso sistema político é distorcido, nossa capacidade de cobrança do governo é incipiente - mesmo com uma mídia que acha que está arrebentando ao fazer pressão sobre o governo ou revelar escândalos. Por outro lado, acertou à medida que nenhum jornal - nem mesmo em um país sob hiperinflação e corrupção deslavada - se faz apenas com o noticiário político-econômico. É preciso olhar para a vida real. Mesmo agora, com a crise cambial, o país continua existindo, progredindo, produzindo, vários setores amadurecendo. Os jornais têm que se propor a olhar cada vez mais os movimentos de transformação econômica, social e cultural do país e não só esperar a denúncia da vez. É claro que as denúncias devem ser apuradas, mas devem ser expostas de uma maneira equilibrada, tanto no conteúdo como no peso que tomam dentro do jornal. As revistas semanais expõem alguns dos defeitos mais patentes do jornalismo brasileiro, pelo fato de que são uma compactação de uma semana inteira e precisam escolher um assunto de capa. E o que se vê nas capas? Ou uma denúncia, a nova revelação, o novo desvio de verbas, ou uma matéria sobre saúde, uma pesquisa que diz ser possível evitar a velhice sem doenças etc., ou, ainda, sobre um artista da Globo, que a revista Época gosta muito de dar, sabe-se por quê. A IstoÉ também gosta desses temas, que são a redução da sociedade brasileira a seus aspectos mais baixos.
Pergunta: O jornalista Aluízio Maranhão, diretor-adjunto de Época, diz que quando a revista deixa de publicar temas como comportamento, saúde, as vendas caem significativamente. A escolha desses temas, dessas capas, não está ligada a um desejo dos leitores de ler sobre isso, a um interesse do mercado? Piza: Eu mesmo gosto de ler assuntos de saúde, biologia, ciência. As pessoas gostam disso, diz respeito à vida imediata delas, diz respeito a um modo de comportamento delas. Mas deve ser bem-feito. Como é que é feito normalmente? Uma pesquisa de dois carinhas lá na Escócia diz tal coisa. Depois vem uma série de regrinhas para serem seguidas, o que não deve fazer etc. E repete-se muito a mesma informação, que nem sempre é confiável. É um empobrecimento da pauta. A sociedade brasileira é muito mais rica, mais complexa, mais interessante que isso. As pesquisas servem para o jornal avaliar se o que está fazendo está dando resultado e não para basear única e exclusivamente o trabalho futuro. No Estadão, sabemos muitas vezes que uma foto colocada no meio ou embaixo da primeira página vai ter um índice de leitura maior que outra foto, que diz respeito a um assunto mais importante, mais relevante, mais duradouro e com mais implicações. Mas aquela foto é uma coisa mais circunstancial, mais bonita em si. São situações com que é preciso lidar, mas não se deve submeter mecanicamente. É pobreza e comodismo esse tipo de imposição. A revista Época, por exemplo, é inspirada na revista alemã Focus - inspirada não, ela é praticamente franqueada da Focus, que é uma revista que se propôs a ser diferente da Der Spiegel, que seria a Veja alemã, mais séria, mais sisuda. A Focus quer ser mais popular, tratar de histórias pessoais, de assuntos mais próximos da vida das pessoas. Só que a Veja conseguiu esvaziar essa estratégia da Época quando ela começou a dar mais serviços e a publicar assuntos como saúde e educação, percebendo que a sociedade brasileira está mais interessada nisso. A Época chegou a bater 800 mil exemplares por conta de uma promoção com celulares e praticando um tipo de "dumping", vendendo 4 revistas por R$ 9, o que é, na verdade, a Rede Globo investindo a fundo perdido. Hoje ela não vende mais de 300 mil exemplares. Ela não tem qualidade. É uma Veja rarefeita e o leitor não trocou a Veja por ela. É a mesma coisa na relação do Valor Econômico com a Gazeta Mercantil. Ou você faz o mesmo mercado e vai brigar de igual para igual com outro, ou faz uma coisa bastante diferenciada que o leitor vai perceber que é diferenciado. Se a Época não se diferenciar muito da Veja, a Veja vai ganhar todas. E pode pôr o assunto que quiser na capa, com o maior apelo possível.
Pergunta: O jornalista faz parte de todo esse processo. Como ele se situa nisso tudo, como ele pode fazer parte de uma transformação, de uma modificação importante do jornalismo que se produz? O jornalista também é culpado? Piza: O jornalista é uma vítima complacente. É uma vítima porque esse é um sistema que ele não criou. Chega às redações e está pronto. Uma redação que vai esmerar-se em castrá-lo, quer dizer, amarrar a criatividade no figurino do Manual de Redação, que é ridículo como concepção, achando que escrever uma boa matéria é seguir um conjunto de regras básicas. Uma boa matéria exige muito mais que isso. Manuais seriam instrumentos importantes para uma certa padronização e simplificação da linguagem. Na realidade, acabam sendo o contrário disso. São instrumentos de burocratização do jornal, quando o jornal deve ser o menos burocrático possível. E uma das saídas para o jornalismo brasileiro é isso: desburocratizar as redações. O que é um redator em um jornal brasileiro hoje? É alguém que pega uma notícia de uma agência internacional, traduz para o português e escreve uma notinha. O que é um repórter? É o cara que, se hoje é o dia da pizza, vai numa pizzaria fazer uma matéria, se hoje estréia o filme tal, vai lá assistir o filme tal. É um jornalismo excessivamente preso ao que recebe de informação, inclusive o chamado jornalismo investigativo. Grande parte dos grandes furos da imprensa foi alguma coisa que alguém passou para algum jornalista, com o qual mantém uma relação nem sempre ética. Quer dizer, não é um trabalho de apuração. Apuração é uma coisa complicada. Não é ter uma fonte quente com determinada autoridade que te passa uma informação dentro de um jogo político que ele está fazendo. Uma informação exclusiva que você vai lá e coloca na manchete do dia seguinte. Por isso eu escrevi na coluna passada que o jornalismo inventa bicho-papão e depois é engolido por ele. O jornalista vai criando notícias e não percebe que está dentro de um jogo que os próprios protagonistas - as fontes - estão fazendo entre si.
Pergunta: O que pode ser feito para mudar isso? Piza: É preciso aumentar a desburocratização das redações. Tem que aumentar a desconfiança em relação às fontes, em relação às informações. Tem que dar mais liberdade para o repórter, inclusive para errar. Tem que desatochar, pelo menos uma parte da redação, para que ela funcione mais livremente. Lá no Estadão temos 3 ou 4 pessoas que funcionam assim, com maior liberdade. O resto está ligado a um setorzinho ou com algum trabalho burocrático, que faz todo dia. Muito pouca gente flutuando, indo checar. E isso é uma coisa que vem de cima para baixo. Os comandos das redações - diretores de redação, editores executivos, editores - têm que ter uma mentalidade de mudar a maneira de a redação se comportar. Mas o próprio jornalista, mesmo dentro dos limites estreitos que estão dando para ele, pode ser mais criativo no texto, pode hierarquizar as informações de uma forma mais clara, pode contestar mais o entrevistado dele, uma coisa que no Brasil não se faz. Quando faz uma entrevista, pingue-pongue ou não, o jornalista chega com uma lista de perguntas e faz uma primeira pergunta, o fulano responde, faz a segunda pergunta e o entrevistado responde, etc. Quando a pessoa responde, ele não diz o seguinte: "Mas isso que você está dizendo fulano de tal ou a fonte tal diz que não é, porque tal coisa seria por esse lado". Não se contesta, não se dialoga com o entrevistado. Apenas se registra mecanicamente o que ele tem a dizer. É um abre-aspas contínuo. O jornalista deixa de fazer muita coisa que pode fazer. Por isso é uma vítima complacente.
Pergunta: E a formação do jornalista, centrada na técnica, não contribui para a proliferação dessa "vítima complacente"? Sem o autodidatismo não há uma certa indigência intelectual entre os jornalistas? Piza: As nossas escolas de jornalismo perdem muito tempo falando de coisas que não têm importância. Como cobrar das pessoas saber taquigrafia, tecnalizando excessivamente o jornalismo. E dão pinceladas aqui e ali das coisas. O que se vê são as pessoas saindo das escolas de jornalismo sem conhecer os jornais que existem no mundo, sem conhecer a história da imprensa, sem conhecer o texto dos grande jornalistas. Da metade do século passado para cá se pratica um jornalismo, aquele que a gente conhece, mais objetivo, mais dinâmico, mais ágil, mas não é o único tipo de jornalismo que existe. Existem profundas diferenças entre o jornalismo americano, o jornalismo inglês, o francês, o italiano. As escolas de jornalismo não estudam jornalismo, as revistas, os grandes jornais. Não se levantam as questões éticas do jornalismo. Ela não dá a formação que tem que dar. O que é um tiro pela culatra. Tudo bem criar escolas de jornalismo, é importante que se crie um curso legal de jornalismo. Mas para as pessoas que já sabem que querem ser jornalistas. Agora, exigir a obrigatoriedade que a pessoa que está nos jornais saia do jornalismo é uma burrice. Às vezes uma pessoa que está em uma faculdade de Letras vai cobrir melhor essa área que um jornalista com parca leitura. Uma pessoa que fez Economia pode cobrir melhor o jornalismo econômico, desde que tenha um bom texto e aprenda uma dinâmica de redação, de reportagem, de apuração, as exigências da técnica jornalística. Mas isso uma pessoa capacitada, com bom texto, aprende. Não se pode ser rígido com essas coisas. É aquela história: nós temos leis que não cumprimos e leis com as quais somos extremamente rígidos. Muitas vezes, com as leis burras.
Pergunta: O jornalismo cultural possui características próprias, mas de alguma maneira ele faz parte dessa situação toda. Como essas situações se refletem no jornalismo cultural? Jornais como El País, da Espanha, e La Nación, da Argentina, possuem seção de Espetáculos e seção de Cultura, enquanto no Brasil a cobertura se dá em cadernos cada vez menos culturais e mais dedicados a serviços e variedades. Por que ocorre uma espetacularização da cobertura cultural? Piza: Porque há uma busca daquilo que supostamente tem um interesse mais imediato do leitor. O problema é que isso é feito anulando e preterindo outras coisas. O bom jornalista cultural, se não tiver enorme bagagem de leitura, não conhecer muito bem a área dele, não vai exercer com brilho a sua atividade. Um crítico de cinema, por exemplo, não é bom se não conhecer literatura, até pelo fato de muitos filmes serem baseados em livros. O crítico de música, o crítico de arte, não podem conhecer só aquilo. Na maioria das vezes, os críticos conhecem apenas o que aconteceu nos últimos 15 anos. Falta perspectiva histórica, capacidade de avaliar o peso relativo das coisas. Ele acha que uma coisa é quando ela não é. Acaba se deixando levar pelo meio artístico, pela moda da vez, pelo nome da hora. Não há contestação. Existe um império das vacas sagradas. Há uma escravização da agenda. Caetano Veloso faz um show amanhã; o repórter vai lá e entrevista Caetano Veloso para a capa da Ilustrada ou do Caderno2. É uma chatice, um tédio, uma burocracia. Se você ler o New York Times, a cobertura diária de cultura não tem mais que 4 páginas. A resenha de um livro, um filme, um espetáculo de dança ou teatro, um artigo ou uma coluna. É no fim de semana que eles dão bastante coisa. Críticas, perfis. Tentam levar os acontecimentos culturais além da coisa noticiosa, levar para o lado interpretativo. No Brasil, os perfis que você lê são laudatórios, não tiram nenhuma forma de interpretação, nenhuma opinião sobre alguma coisa. Há uma redenção à agenda de entretenimento e espetáculo. Ocorre a marginalização da atividade crítica e a banalização da reportagem cultural. Reportagem cultural não é falar assim: o Ministério da Cultura prometeu dar 70 milhões esse ano e só deu 65 milhões. Isso é notícia. Reportagem cultural é destacar o perfil de uma pessoa que tem o que dizer sobre o momento, entender tendências, colocar controvérsias em questão, criar polêmicas sadias - não esse troca-troca de insultos, aquilo que se chama de polêmica no Brasil. Não há um interesse pelo debate.
Pergunta: E a experiência da revista Bravo contraria de alguma maneira isso? Piza: Contraria à medida que pretende ser mais seletiva em relação aos eventos. É mensal, apresenta uma seleção de 3,4 eventos que valem a pena em cada área. Não é aquela overdose - que acho que o Caderno2 do Estadão peca muito em fazer - de notícias: fulano de tal está filmando não sei o que, que estréia não sei quando. Nunca se sabe se vale a pena ir ver ou não. Tudo, a princípio, vale. Olha-se a coisa de um ângulo tribal: o cara que adora pop britânico vai dizer que qualquer disco que sair novo é fabuloso. Esquece-se do leitor que quer apenas dar uma zapeada naquela área do conhecimento, naquela arte específica, e não quer saber até o nome do filho do baterista da banda. E a Bravo tenta ser mais seletiva. É bonita por que quer vender a idéia de que consumir cultura é uma coisa importante. Eu acho isso interessante e concordo com essa visão. Ela é bonita, vistosa, tenta ser boa na imagem, no texto, na edição, tenta dar uma agenda de forma seletiva e tem alguns colunistas no começo. Mas cai um pouco no vício de se limitar à agenda. É o livro que saiu, a peça que vai estrear, a exposição que está em cartaz e um outro colunista falando alguma coisa. Não tem reportagem e só agora vai abordar o assunto televisão. E cultura, no sentido mais amplo do termo, que deve ser levado em conta, no Brasil inclui necessariamente a televisão. Ela é uma formadora de valores, de signos, poderosa na sociedade brasileira. Mas a Bravo começa a olhar para a televisão tentando fazer de uma forma diferente do que se vê por aí, uma forma geralmente banal de tratar a televisão. A Bravo só peca ao não levantar mais temas, questões. É uma coletânea de resenhas com algum serviço. Ela não dá um perfil interessante de alguém, não dá reportagem e nem mostra que determinada coisa está acontecendo em determinada região. E acho que peca na avaliação que faz das coisas. Claro, nada comparável ao que é feito em outras revistas e nos jornais. Vou dar um exemplo que eu venho dando e considero sintomático: a revista Veja deu 3 páginas para o Saraminda do José Sarney e deu rodapé para o livro do Milton Hatoum. Dois Irmãos. Parte-se do princípio de que 1) se o José Sarney é mais famoso, é mais interessante. Está errado. 2) de que ele vai ter maior público. Não necessariamente. 3) abordam o José Sarney como se ele fosse um grande escritor, citando uma frase do Lévy-Strauss. Mas ele não é um grande escritor. E a matéria não me convenceu de que ele seja.
Pergunta: O mesmo não acontece quando a imprensa dá espaço para gente da própria mídia, sem um talento reconhecido, como para a literatura do Jô Soares, por exemplo. Vale muito mais o fazer parte da mídia que o próprio talento literário? Piza: Isso é aquela história das vacas sagradas. Você tem alguns escolhidos e o resto, bem, o resto é o resto. Não se deve fugir dessas personalidades, desses escolhidos, mas é preciso colocar em contexto, discutir sobre eles. É que o próprio jornal, e eu costumo repetir isso, é uma forma de consumo cultural. Você lê uma resenha de um filme que não vai poder assistir, não por causa da resenha. Mas você pode ler a resenha e não ver o filme. A própria resenha é um produto cultural. Vai te colocar uma coisa na cabeça, vai te questionar alguma coisa, vai (ou deveria) te fazer pensar. E o jornal, sendo um produto cultural, não precisa ser um suposto vidro transparente, que supostamente não distorce nada, cuja função é simplesmente exibir ao leitor o que está acontecendo. E nem precisa dizer que existe seleção por questão de espaço. Além de existir a redenção às vacas sagradas, acabam-se cometendo, nesse meio tempo, grandes injustiças. Num país que já tem tão poucos talentos, não reconhecer na devida medida o talento de um Milton Hatoum é criminoso.
Pergunta: Mas não existe uma questão que é bem visível no cinema: por um lado o cinema americano, hollywoodiano, mais comercial, fazendo um sucesso maior que, por exemplo, por outro lado, um cinema europeu, mais autoral, menos preocupado com questões comerciais. O jornalismo não acaba refletindo na escolha do que abordar esse tipo de fenômeno? Piza: Mas aí há uma falácia. Parte-se do princípio de que o cinema hollywoodiano vai ter uma enorme bilheteria, então você tem que cobrir. É verdade. Tem que tratar do filme; mas, simplesmente pelo fato de que o filme, por si só, vai ter um cartaz necessário para mover bilheteria, você não precisa dar 3 páginas para esse filme. Não é preciso vencer o mercado, mas não se deve ser submisso a ele. O livro do Jô Soares, por exemplo, não precisa de divulgação, até porque ele faz aos montes no programa dele. Tem que pegar isso e tratar como produto - esses livros, esses filmes - e dizer que é interessante por quem é o autor e que eventualmente vai ser interessante em si mesmo. Há essa discussão entre índice de leitura e qualidade, que é uma divisão mas não necessariamente uma oposição. Quando surgiu a Bravo, fui convidado a dirigir a revista. Todas as pessoas me diziam para não ir porque revista de cultura não vende no Brasil. A Bravo já tem 5 anos e vende respeitáveis 40 mil exemplares, mesmo sendo uma revista relativamente cara. E poderia estar vendendo bem mais se a revista tentasse cutucar, agitar as coisas. Quando eu fui fazer o caderno Fim de Semana na Gazeta Mercantil também me disseram que executivo brasileiro não lê, que é ignorante e que o caderno não teria leitura nenhuma. Fizeram certa vez uma medição da leitura do caderno e ele só perdia para a primeira página da Gazeta Mercantil. E nas bancas vendia-se 50% a mais na sexta-feira por causa do caderno. Estávamos cansados de receber na redação e-mails de elogio, cartas de médicos, por exemplo, que diziam não ler a Gazeta por considerarem um jornal para executivo mas que, quando passaram a ler o Fim de Semana, acabam gostando e se tornando leitores do jornal. É preciso ter cuidado com as regras mecanicistas sobre o que é o leitor, do que o leitor gosta. Muitas vezes você oferece alguma coisa ao leitor que ele não gostava antes ou nem sabia da existência e, pela maneira como você oferece, ele passa a gostar. Eu cansei de receber cartas de leitores dizendo que não gostavam de artes plásticas, por exemplo, mas passaram a ler sobre o assunto no caderno e surgiu o interesse. O leitor precisa ser desafiado. Ele não deve ser acariciado, confirmado nos seus preconceitos.
Pergunta: Muitas vezes o leitor quer algo e nem sabe que quer. O jornalismo não deveria olhar com mais cuidado para isso? Piza: E às vezes o próprio leitor sabe que quer alguma coisa e o jornal não está dando. Não se pode subestimar o leitor. E nem confundir o índice de leitura com a real aceitação. O leitor não é mais tão bobo. Eu me lembro de uma pesquisa qualitativa da Folha de S.Paulo sobre as capas da Ilustrada mais lembradas pelo leitor no período de um ano. Uma era sobre o "Eu acuso" do Zola e outra sobre Tomás Antônio Gonzaga. Dois assuntos sobre personagens mortos e fora das áreas tradicionais da Ilustrada, que são cinema hollywoodiano e música pop. Parte-se do princípio de que o leitor é uma coisa e esquece-se que cada leitor é diferente e que muitos, não sabendo o que querem, podem ser surpreendidos.
Pergunta: O jornalista acaba fazendo parte do campo cultural, na noção de Bourdieu, e integrado a produtores, atores, escritores, artistas; enfim, determina o que é importante, o que merece destaque, o que deve ser visto, lido, ouvido. Não se está impondo uma verdade ao leitor, deixando-o desassistido? Piza: Isso se vê muito no meio das artes plásticas. Formou-se uma elite que compra arte, expõe arte e consome arte que dominou tudo o que diz respeito a meios de veicular arte. O que são as Bienais senão eventos que atraem milhões de pessoas cuja maioria sai insatisfeita? Mas que se vende como números grandiosos da popularização da arte. E, na verdade, a arte conceitual é a arte mais elitista do mundo. Exige um conhecimento prévio dos conceitos teóricos do artista, fabricados pelos curadores. Há uma verdadeira tirania dos curadores. Existe um grupo muito reduzido impondo a uma ampla população os "gostos" deles. Por trás do populismo existe um elitismo absurdo de uma patota. E no Brasil isso é muito acentuado, apesar de existir no mundo inteiro. A minha história é um pouco disso: eu fui demitido duas vezes, da Folha e do proprio Estadão, por cutucar patotas. Eu fiz na Folha uma crítica a um evento em que estava o Haroldo de Campos e que descrevia uma claque de estudantes, alunos dele na PUC, que foram lá para fazer oba-oba para ele. E o evento nem era em torno dele. Na primeira reformulação, reengenharia, sei lá como eles chamam, me incluíram. A grande falácia do jornalismo - não só do jornalismo e sim de tudo que envolva mídia, entretenimento - é achar que se sabe o que o povo quer.
Pergunta: Prefere-se dar várias páginas para um escritor como Paulo Coelho, porque tem muitos leitores, em vez de despertar, quem sabe, o interesse por alguém como Dostoiévski. Piza: E a Editora 34 fez uma edição de Crime e Castigo, com versão nova, que está na lista dos mais vendidos. Dostoiévski! E tem coisa boa na lista dos mais vendidos. Existem muitas formas de fazer jornalismo cultural, produção cultural, e atingir os mais variados tipos de pessoas. Dizer que o leitor médio está interessado no último grupo de pop britânico e não na Sinfônica de Nova York é uma bobagem. Quando o Masp fez uma exposição do Monet, lotou. É uma tribozinha modernosa pensando que aquilo que falam é o que está na moda. (por Alessandro Minuscoli / e-mail: alessan@vortex.ufrgs.br)
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