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| BABENCO NAS CELAS DO HORROR |
| fonte: palestras |
23 de março de 2003 |
O diretor brasileiro, nascido na Argentina, fala sobre 'Carandiru', adaptação do livro de Drauzio Varella que estréia em 11 de abril, e revela mais uma vez a obstinação e o talento que o fizeram superar uma doença e construir uma carreira única
Hector Babenco está mancando levemente e com a aparência um tanto frágil. Há alguns dias tirou o gesso que o deixou quatro meses numa cadeira de rodas depois de uma lesão da rótula numa praia. Os cabelos brancos começam a ocupar as laterais de sua cabeça, e na barba por fazer os pêlos brancos já desfrutam superioridade numérica. Seus olhos expressam certa melancolia e desconfiança, mesmo que as primeiras palavras sejam de saudação calorosa. Aos 57 anos, Babenco traz no físico a história de quase duas décadas de resistência a um câncer linfático, além de uma vivência repleta de outras lutas pelo corpo e pela mente. Quando engata a falar, porém, o rosto perde a palidez, os gestos se expandem e, em alguns momentos, seus olhos se dilatam pela ação do calor. E se vê o homem encaixar na lenda: Babenco, o cineasta, homem de personalidade forte, capaz de converter, num piscar de olhos do interlocutor, a voz terna num discurso pesado que já deixou prostrado muito ator de porte.
Babenco, que amigos definem como "agridoce", sorri timidamente quando escuta que mesmo os mais melindrados por suas eventuais explosões de insatisfação não lhe recusam atributos como a ousadia, o humor e a generosidade. "Eles dizem isso, é? Pode ser." Uma pequena pausa, e ele recupera a firmeza de tom: "Sou mesmo quente na ação, porque sou apaixonado pelo que faço. E meus amigos são amigos para a vida inteira." Nessa profissão de abnegados que é ser cineasta de qualidade no Brasil, Babenco é o mais talentoso e o mais persistente deles. Simpatizantes ou antipatizantes têm igual admiração por seu profissionalismo, pela dedicação que devota a cada filme, pela capacidade de concretizar projetos que, nos primeiros esboços, parecem impossíveis aos outros.
Carandiru, o filme que estréia no Brasil todo no próximo dia 11, é um deles. Adaptar o livro de Drauzio Varella, Estação Carandiru, era um pavilhão de desafios. O primeiro era convergir para pouco mais de duas horas de filme uma história que abre portas para diversas histórias, sem perder a narrativa nos corredores. O segundo era recriar e instalar o set na Casa de Detenção antes de seu fim, a implosão de dezembro do ano passado também registrada na fita pelo diretor. O terceiro, habitual na Belíndia, era conseguir o dinheiro e as condições para fazê-lo à altura de um best-seller que, com mais de três anos na lista dos mais vendidos, superou 1 milhão de exemplares vendidos; e enfrentar recusas baseadas na alegação de que "o projeto não faz bem à imagem do Brasil", na frase do então ministro Pimenta da Veiga.
Para Babenco, havia ainda um desafio que não tinha tanto a ver com as câmeras e os patrocínios. Era o de devolver ao dr. Drauzio, de certa forma, um relacionamento que começou entre médico e paciente em 1984 e logo se tornou entre dois amigos e criadores. Babenco acompanhou o nascimento de Estação Carandiru desde o início, sem saber que um dia filmaria aquele livro - na verdade, sem saber se um dia ainda filmaria aquele livro ou qualquer outro. "Drauzio cuidava da minha vida", diz Babenco, sem efeito de retórica nenhum. "Ele era o fiel depositário da minha angústia." Durante anos, "mais de 50 vezes" Drauzio se desdobrou em oncologista e amigo para sustentar a passagem de Babenco por uma crise; como um porto, representava segurança para chegar e para sair. E foram os casos que vivenciava como médico do Carandiru, a partir de 1989, que nutriram, antes que o cineasta, o paciente Babenco.
"Eu me realizava através do labor dele", diz Babenco, que mistura termos de pelo menos três idiomas - português, inglês e espanhol - em sua fala. Ele ouvia cada vez mais histórias à medida que Drauzio ia ficando obcecado com o universo de biografias e códigos do Carandiru, onde fazia trabalho voluntário contra a aids. "Por que você não grava essas histórias? Por que não escreve?", incitava o cineasta, até que um dia Drauzio cedeu; dali em diante, os faxes (naqueles tempos em que o e-mail não era usual como hoje) começaram a deslizar pelos aparelhos de um para o outro. O mergulho de Drauzio nas vidas daqueles doentes - e daquela grande doença social - dava vida a este doente e amigo, igualmente interessado pela contundência e humanidade de tais histórias. Enquanto Drauzio escrevia o livro, Babenco convalescia do transplante de medula óssea feito em Seattle (EUA) em 1996.
"O Hector é um super-sobrevivente", diz seu amigo Isay Weinfeld, arquiteto e também cineasta. "Ele já enfrentou tantas coisas que acredito que hoje o menos penoso seja fazer um filme." Não que não tenha ansiedade, e muita, de ver a reação que Carandiru terá. Mesmo sendo Babenco tão sensível, Weinfeld tem certeza de que ele sempre renascerá. "Ele é uma fera, uma fênix." O dr. Drauzio, que até hoje trata de Babenco, também não duvida: "Foi a obstinação de Hector que salvou sua vida." O médico aponta também a racionalidade do seu paciente, sua capacidade de tomar decisões mesmo nos momentos mais difíceis.
Foi também obstinação que Babenco mostrou quando leu, em primeira mão, o livro de Drauzio, concluído em 1999, e lhe disse que iria filmá-lo. "Você está louco", pensou o médico. Com a alta de Babenco, depois de passados cinco anos do transplante, a loucura começou a se tornar realidade. O que atraiu Babenco a filmar o livro não foram apenas as histórias fortes e surpreendentes colhidas pelo médico enquanto colhia sangue dos presidiários; foi especialmente o modo de Drauzio encará-las, de registrá-las sem glorificar ou condenar os personagens de resto já condenados, de se colocar como observador envolvido e não como juiz das situações.
"Não há sentimentalismo", diz Babenco, e o ponto em torno do qual tudo gira é a frase de um preso: "A gente não conhece a morada da verdade." Mesmo co-fascinado por aquele mundo particular, Babenco fez de Drauzio um personagem quase coadjuvante do filme, como um coro de peça grega, por quem os dramas vão sendo encadeados. Drauzio não se viu no personagem, pelas diferenças físicas e temperamentais. "Ele não tem conflitos. Eu não gosto de bandidos e às vezes ficava indignado com eles." Mas o próprio Drauzio indica o motivo dessas diferenças: "Num livro, é mais fácil o narrador tentar ser equidistante. Se o médico no filme vivesse conflitos, se tornaria protagonista e as histórias perderiam sua força." Diz que Babenco captou "magnificamente" o ambiente do presídio e fez muito bem em sugerir a violência em vez de chapá-la na tela.
A tragédia que se abaterá sobre os presos é por eles ignorada, imprevista, ainda que todos os elementos estejam postos ali, diante da cegueira da sociedade. Não há prenúncios. "O assunto do filme é aquele prédio com 1.800 presos", diz Babenco. "O assunto não é o massacre no qual dizem que 111 morreram, embora devam ter sido mais." O filme mostra as raivas reprimidas, algumas sublimadas em forma de humor ou escape, a maioria prestes a perder o controle à menor faísca. No final, o massacre, dos 35 minutos que levou na vida real para os 9 minutos que dura no filme, paralisa o espectador na cadeira. Babenco cita o comentário de Stanley Kubrick sobre A Lista de Schindler, de Steven Spielberg: "O filme não é sobre o Holocausto, é sobre 400 pessoas que se salvaram." Carandiru é sobre alguns sobreviventes do massacre de 2/10/1992, diz Babenco. "É como diz o Drauzio: eu apenas ouvi os presos."
Objeções virão de que os presidiários não são inocentes como os judeus executados pelo nazismo. Mas Babenco lembra que o filme não os idealiza; apenas mostra que a escala da brutalidade policial foi absurda, como uma simples comparação dos armamentos mostra. "Há todo tipo de pessoas entre os bandidos, como na sociedade, inclusive os mais cruéis. Não é nem o 'Seja marginal, seja herói' do Hélio Oiticica, nem o 'Bandido bom é bandido morto' da direita." Objeções também virão de que a síntese do massacre não é integralmente verossímil, porque, entre outros detalhes, os presos na realidade não fizeram aquela entrega de armas pelas janelas. "Não estou manipulando fatos por ideologia", afirma Babenco, com alguma irritação. "Não quero solucionar nada. Pixote não mudou a Febem, mudou?" Hector Babenco lembra várias passagens que acrescentou para efeitos estéticos, pois Carandiru não é um filme documental. Num momento, os policiais parecem fazer uma coreografia, como num balé sinistro. O cachorro que passeia entre os corpos é outra licença artística, o que nada tem a ver com estetização da violência. Babenco, claro, fez uma interpretação da história, dentro dos limites de um realismo crítico. Selecionou personagens do livro, cujas histórias díspares o fazem sair do presídio, sem no entanto "desenclausurar" o espectador; deu peso a cenas como o "show educativo" de Rita Cadillac no meio do pátio e o Hino Nacional antes do jogo de futebol (o preso, como o brasileiro em geral, só assim se unindo em paz); criou momentos visualmente marcantes como a do balão subindo e a cena de abertura, sempre em parceria com o diretor de fotografia Walter Carvalho.
A abertura, por sinal, só foi surgir na sétima versão do roteiro, quando Drauzio Varella contou uma história que acabara de viver no "amarelão", o trecho do presídio onde ficam isolados os presos dos presos, em que a chegada do doutor foi usada como pretexto pelo monitor para debelar um conflito. Com Fernando Bonassi e Victor Navas, Babenco trabalhou intensamente no roteiro: fizeram nove versões até a final, ao longo de quase três anos. E o roteiro não detalha muito, não traz "storyboard", porque Babenco gosta de definir melhor momento a momento. Foram mais de três meses de filmagem, a maior parte feita em estúdio (apenas as externas foram filmadas no presídio). Foi no meio de uma troca de carretéis que ele se tocou de que, mais de 20 anos depois de Pixote (1980), Carandiru é sobre os mesmos meninos de rua, agora adultos, com a mesma falta de opção.
Babenco se diz muito mais exigente e experiente agora, mas, se fosse fazer Pixote pela primeira vez, não faria diferente. O lirismo daquele filme, considerado um dos três melhores dos anos 80 por críticos americanos (em enquete da revista Première, ao lado de Ran, de Akira Kurosawa, e Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman), vinha do fato de que seus personagens eram "seres humanos em formação, num processo de descoberta, buscando entender seu espaço de sobrevivência". Já Carandiru é sobre homens mais maduros, que sabem onde estão, e logo o filme parece a Babenco mais reflexivo, menos intuitivo. Ele se sente mais capaz de "organizar o discurso narrativo", colocando até mesmo humor ("Não há inteligência sem senso de humor", diz, citando o roteirista Jean Claude Carrière), apesar de sua origem "ser o melodrama". Prova dessa capacidade é o fato de que Babenco, inspirado pelo exemplo do próprio Drauzio ("Já terminado o livro, ele ainda conseguiu eliminar 19 adjetivos"), cortou muitos minutos do filme até declará-lo pronto - o que deu uma agilidade que nem sempre Babenco atingiu em sua carreira.
Carandiru também traz outra marca de Babenco, que talvez seja a que mais o distingue de outros cineastas brasileiros: a direção de atores. O elenco, grande, está todo excelente, com diversos atores jovens e muito talentosos, que ele diz preferir porque livres de vícios. Alguns já têm aparecido em filmes nacionais, como Wagner Moura (Deus É Brasileiro), Lázaro Ramos (Madame Satã) e Gero Camilo (Bicho de Sete Cabeças), além de Rodrigo Santoro, o rapper já morto Sabotage, Milton Gonçalves, Caio Blat, Maria Luisa Mendonça e outros; também revela nomes como Milhem Cortaz (o Peixeira) e Ailton Graça (o Majestade). Apesar de seu temperamento "quente", Babenco não é o tipo de diretor que precisa gritar para se impor no set. Mas comanda a equipe e sabe enquadrar um ator, nos dois sentidos do verbo. Para um filme com 18 protagonistas, então, nada mais fundamental.
O cosmopolitismo de Babenco não está apenas na fala e nos filmes, mas já no início de sua biografia. Seus pais eram judeus: a mãe nasceu em Varsóvia; e o pai, de ascendência ucraniana, era um "gaucho" (camponês) argentino. Babenco lembra que, quando tinha 4 anos, chegou com a família em casa, num bairro germânico de Buenos Aires, e viu uma frase escrita num espelho: "Judeus de merda, vão embora, não queremos vocês aqui." O cineasta sabe bem, portanto, a condição de perseguido, de "alheio", de zombado - o que seguramente se reflete em seu cinema que olha os desajustados e os marginalizados.
Nos 60, viveu na Itália e ali descobriu o cinema, trabalhando como figurante e assistente de produção em filmes de Dino Risi. Em 1969, sem poder voltar à Argentina, porque não prestara serviço militar, veio para o Brasil, onde até foi vendedor de túmulos para sobreviver. E o cinema reapareceu em sua vida. Começou com alguns documentários com temas como futebol e carnaval e foi "ghost-director" de Roberto Farias em um filme sobre Emerson Fittipaldi. Depois do semi-autobiográfico O Rei da Noite (1975), fez o melhor (e quase único) filme sobre a tortura do regime militar, Lúcio Flávio (1977). Com Pixote, foi descoberto pelo mundo, que o passou a tratar como mestre.
Seguiram-se três filmes com produção americana: o ótimo O Beijo da Mulher Aranha (1984), que deu Oscar para William Hurt e projeção para Sonia Braga; o controverso Ironweed (1987), com Jack Nicholson e Meryl Streep; e o belo e incompreendido Brincando nos Campos do Senhor (1991), filmado na Amazônia, um tipo de empreitada que nem os amigos acreditaram que Babenco pudesse realizar. Não cometa o equívoco de dizer que Babenco trabalhou "com Hollywood": ele faz questão de lembrar que foram produções independentes e para projetos com sua cara. Ao latino fez bem a ida para os EUA, onde começou a aprender o "less is more", a recusa da retórica em respeito ao espectador, e os segredos do roteiro, como a hierarquia entre os personagens e o foco da narração.
O grande mérito de Babenco é esse: fazer um cinema que ao mesmo tempo atrai o espectador e é autoral - realista e pessoal - como, para citar um nome que lhe é caro, o de um Louis Malle. O "modelo narrativo" que adota é o seu, não o americano, e no entanto com lições aprendidas de lá. E a identidade do autor não é apenas pelos temas ou gêneros, mas por esse modo de contar histórias, fluente mas não acelerado, empático mas não apelativo. Sobre Carandiru, por exemplo, diz: "Não é um filme sobre briga de gangues, à maneira americana. É a bagunça brasileira mesmo." "Babenco é ao mesmo tempo um clássico e um radical", diz outro de seus amigos, o cineasta e articulista Arnaldo Jabor. "O que mais admiro nele é sua coragem como artista e homem, que fez pelo menos três filmes de primeira, Pixote, O Beijo e Brincando, com uma linguagem independente. Carandiru é o coroamento de tudo isso." E Babenco sempre recusou alegorias moralistas, o estilo Cinema Novo a que nunca aderiu. Diz que fazer cinema é "muito solitário", apesar de trabalho coletivo: "Você fica ali com o bichinho... até decidir mostrar para os outros." Embora seja do tipo de criador que hesita bastante antes de repreender o filhote, amigos e colegas vêem e palpitam e ele ouve tudo.
Apesar do passaporte com tantos carimbos, Babenco, que se naturalizou em 1975, se considera brasileiro e, mais ainda, paulistano. "Ancorei em São Paulo." Pai de duas filhas de dois casamentos, Mira (com a marchande Raquel Arnaud) e Janka (com Fiorella, do restaurante), e separado da terceira mulher, a atriz Xuxa Lopes (cujo filho, Bento, ajudou a criar por 13 anos), Babenco acaba de ter construída uma casa na Vila Nova Conceição, bairro chique da cidade, com projeto de Weinfeld. O passado argentino, em especial a relação com o pai, se esgotou na catarse de Coração Iluminado (1998), o filme que fez seguindo o mote de que precisava se lembrar de tudo para poder esquecer. "O ponto é ser internacional falando do seu quintal", diz Babenco - e seu quintal se chama Brasil. "Sou um cidadão do mundo e brasileiro", diz, comparando-se com o pianista Nelson Freire, que pode fazer concerto em qualquer lugar do mundo sem deixar de se sentir brasileiro.
A Babenco interessa o "caldo de cultura nacional", a mistura de simplicidade e complexidade, a diversidade que contém de Parintins a Curitiba; e ele vê grandeza num país que passa de um presidente catedrático para outro metalúrgico. Acha ainda que, como Espanha ou Portugal, o Brasil pode se reorganizar em duas décadas e se tornar um país mais desenvolvido e justo. Mas não confunda com um otimista esse cidadão que, depois de um ano e meio no Partido Comunista italiano (1964-65), logo se desiludiu com a causa e que teve Pixote recusado no Festival de Havana porque não seria um filme político. "Há muitos vícios de formação no Brasil; o favor e a corrupção andam juntos há muito tempo." Se continuar assim, sem uma transformação da classe política, o Brasil vai demorar a se civilizar, diz, porque a ética é escassa e a violência já fez o país ficar "pior que a Colômbia".
Não quer falar muito sobre as dificuldades de fazer filmes no Brasil, critica a "classe" que só quer saber de seus próprios projetos individuais, mostra desilusão com uma cultura que teima em não ver o cinema como segmento de produção, coisa industrial, com exigências de infra-estrutura, com carência de técnicos especializados. No escritório de sua produtora, a HB Filmes, localizado na Cidade Jardim, rua Emanuel Kant ( "Li alguma coisa quando jovem, aquela crença no idealismo. Quem não cai nisso aos 17 anos?"), entre peças e quadros de Mira Schendel, Nuno Ramos e Iole de Freitas, ele aponta para uma foto de Walter Carvalho no caminho para a escada. É uma imagem de 1982, em Cumaru, na Amazônia: um cinema a céu aberto em que os assentos são troncos de árvores. No mundo de Babenco, ao menos a imaginação tem morada. |
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