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Aforismos sem juízo
"Paixão não é ponte para o amor. É a correnteza do rio."

     



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Entre o poder e o país
fonte: O Estado de São Paulo 08 de fevereiro de 2004
O que ainda não está claro para muita gente é o fato de que o PT tem um projeto de poder, não um projeto de país. Aqui e ali, pode até ser que esses projetos coincidam. Na maioria dos casos, porém, a politização cria acomodações, obstáculos e indecisões de alto custo para esta democracia capitalista. Os programas de médio ou longo prazo que o governo lança são muito alardeados e mesmo assim não engrenam. Um deles, claro, é o Fome Zero, que até o presidente Lula agora reconhece que não vai além do mutirão assistencialista. Outro é o PPP, a parceria entre investimentos públicos e privados na área de infra-estrutura, que assim como os tais "marcos regulatórios" (as regras e metas para setores como o energético) corre o risco de não ser mais que uma carta de boas intenções e cara execução.

Os focos maiores estão em outros lugares. Muito analista se pergunta por que, por exemplo, China e Índia recebem mais investimentos estrangeiros do que o Brasil, que tem câmbio flutuante e certa estabilidade institucional. É fácil: os investimentos financeiros temem o alto custo do Estado nacional, a dívida interna de quase 60% do PIB, rolada a juros de agiota; e os investimentos produtivos temem o custo do emprego, por causa dos encargos trabalhistas, e as teias tributária, jurídica e burocrática (e o problema não é a quantidade de funcionários públicos, mas seu custo e a falta de critérios técnicos). Não há ambiente para o investimento que não o oportunista. Na China e na Índia, a combinação de mão-de-obra barata, mercado de consumo potencial, saúde fiscal e vigor produtivo são, apesar dos problemas, combinatória bem mais atraente.

Isso não significa que esse seja o caminho brasileiro, antes de mais nada porque aqui a renda per capita e a liberdade civil são muito maiores. Significa apenas que, como o Brasil precisa da poupança externa, deve acordar para essas realidades. E tais reformas seriam extremamente úteis também para o mercado interno, principalmente se acompanhadas da melhora e expansão do ensino. Mas eis o mal do governo petista: para cada mudança estrutural necessária, do sistema judiciário ao agropecuário, do educacional ao político, há dois conceitos vagos e opostos em sua equipe. Vide a recente lei de biossegurança, que dá margem a decisões baseadas no preconceito e não na ciência (área em que a Índia brilha). Não por acaso o choque burro entre o lobby ambientalista e as atividades produtivas se espraia pelo território nacional. Ao PT interessa mais acumular poder do que ajudar o país a tomar o rumo do progresso socioeconômico.

Douce France

Na volta da Índia, passei 12 horas em Paris, aonde não ia desde 1998. A cidade está ainda mais rica e linda, e o frio e a garoa não me impediram de pensar em como nossa mente jamais consegue registrar à perfeição a beleza em tal escala. Dei uma volta por museus e lojas, sentei num café para tomar vinho, flanei até cansar e chegar a hora de voltar ao aeroporto Charles de Gaulle, tão bem reformado e expandido. Foi literalmente um banho de civilização.

Mas os debates... Nas rádios e nos jornais o tema era um só: a imigração. As pessoas estão furiosamente polarizadas entre defender a importância dela para os serviços e a mistura cultural e deplorar suas supostas conseqüências sobre a violência e o padrão social. Mas a lei decretada por Chirac que bane o uso de símbolos religiosos em espaços públicos, como os véus islâmicos, é um atentado à liberdade de expressão; se fosse de Bush, seria motivo de indignação no mundo todo. Culpar os imigrantes pelo desemprego numa sociedade tão envelhecida - nos sentidos literal e figurado - é paliativo xenófobo.

Cadernos do cinema

É difícil compreender a badalação em torno de Encontros e Desencontros, o filme de Sofia Coppola. É uma historinha de quase-amor num cenário de caricatura do Japão. Onde viram "sutileza", vê-se apenas o envolvimento superficial de dois americanos entediados durante uma viagem. As gags preconceituosas e a atuação de Bill Murray atraem o público; mas o que há para ler nas entrelinhas além do fato de que os dois devem enfrentar a crise de seus casamentos? Eles não se dizem coisas interessantes; não vão além da apreensão simplista dos outros; não fazem nada afora se divertir toscamente.

Incompreensível também é a indicação desse filme Seabiscuit, de Gary Ross, para nada menos que sete categorias do Oscar. Trata-se daquele enredo Sessão da Tarde que todo mundo já deveria estar cansado de valorizar.

Ao Deus-não-dará

Fernando Meirelles a Luiz Zanin Oricchio neste jornal, sexta-feira, sobre seu filme Cidade de Deus: "O principal problema é o ritmo. Alguém escreveu que ele tem um ritmo exagerado e eu concordo com isso. Não gosto da velocidade dele. (...) Acho que errei. O filme ficou muito rápido, frenético." Eis uma prova de que o cinema brasileiro está amadurecendo em todos os sentidos.

Uma lágrima

Para Hilda Hilst, morta na terça-feira aos 73 anos. Havia um exagero "cult" em torno dela, por sua personalidade e sua posição peculiar na literatura brasileira; mas o que fica são alguns poemas de força emotiva e habilidade verbal (como Odes Mínimas), aqueles que não transbordaram para o romantismo especioso, e mais diversos trechos de outras poesias e de sua prosa.

O bem da beleza

Sapo de fora chia - para quem quiser ouvir. Acompanhei em TVs, sites e jornais a cobertura do São Paulo Fashion Week e, afora a histeria em torno de celebridades e os excessos "performáticos" cada vez mais freqüentes, para não falar também da bagunça instalada no Pavilhão da Bienal, cabe perguntar se esse processo da moda brasileira nos últimos anos vem avançando o tanto que dizem ter avançado. Há coisas muito bonitas (para meu gosto, a Cori por Alexandre Herchcovitch, a Forum feminina e, como sempre, algumas peças de Reinaldo Lourenço, Glória Coelho e Fause Haten), mas há também um excesso de infantilidades e derivações - tudo é "inspirado em", tudo são referências - e, apesar dos motivos econômicos, uma carência de sofisticação internacional. Ou o Brasil não quer ser muito mais que o país da moda praia e das belas modelos? E acho que, com exceções, o jornalismo é parte dessa insuficiência, ao deixar de lado recortes mais críticos, seletivos, e até informações que mostrem que nem tudo que parece original vale quanto posa.

Por que não me ufano

O melhor dos festejos de aniversário de São Paulo, além dos livros lançados, está nas paredes de galerias, museus e centros culturais, como nas fotos de Cristiano Mascaro no Instituto Moreira Salles, no acervo do mesmo IMS na Galeria do Sesi (também em forma de livro excelente) e, claro, na exposição de Picasso na Oca, com um extrato decente do Museu Picasso de Paris. Não é o caso de comparar com o quarto centenário, em que o Parque do Ibirapuera, o Monumento às Bandeiras e a Catedral da Sé foram inaugurados (o que dá a dimensão da "juventude" da cidade); mesmo assim, a atual é uma comemoração modesta para a complexidade de São Paulo. Por falar nisso, aviso aos que me pediram que o "minidicionário" São Paulo de A a Z está disponível em meu site (www.danielpiza.com.br) com alguns acréscimos importantes, como a Mostra Internacional de Cinema, empreitada heróica de Leon Cakoff, e o tema da ciência, representado pelo excelente trabalho da Fapesp.