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| Arquitetura de um homem só |
| fonte: O Estado de São Paulo |
19 de dezembro de 2004 |
Nesta semana, como em quase todas as semanas, o arquiteto Oscar Niemeyer foi assunto dos jornais. Terminadas as obras do auditório do Ibirapuera, em São Paulo, Niemeyer aproveitou para criticar: ele foi construído sem a destruição do prolongamento da marquise que, em sua opinião, faz daquela área a única praça do mundo dividida em duas. A construção foi autorizada sob a alegação de que o auditório estava previsto no projeto original, que data do quarto centenário da cidade. O prolongamento da marquise, no entanto, não estava no projeto.
A situação revela alguns problemas da arquitetura brasileira. Primeiro, a inconsistência das opiniões e decisões, a qual se reflete, por exemplo, na carência de críticos e revistas de arquitetura. Segundo, o “niemeyercentrismo” – talvez não uma ditadura voluntária, mas de qualquer modo uma ditadura nada proletária – que impera há tanto tempo no Brasil, já que tantas obras importantes continuam a ser entregues à sua assinatura. E terceiro, o próprio auditório, que tem um formato elementar, igual a uma cunha, decorado à porta com um concreto ondulado e vermelho que lembra uma tampa de lata aberta.
O livro Arquitetura Moderna Brasileira (Phaidon, 240 págs., R$ 225), da inglesa Elisabetta Andreoli e do americano Adrian Forty (com colaboração de cinco autores brasileiros), bela edição ilustrada em capa dura, é ao mesmo tempo antídoto e sintoma desses problemas. A foto da capa mostra o topo da catedral de Brasília feita por Niemeyer; sua carreira toda, e não só os prédios da capital, ocupa a maioria das páginas; tudo que ele fez é elogiado por igual; e tudo que os outros fizeram parece visto à sua luz e sombra. Certo, quem sofre de “niemeyercentrismo” é toda a cultura brasileira, e assim sendo o livro funciona de fato como um eficiente resumo da arquitetura nacional. Mas sutilezas de texto e edição eram obrigatórias até mesmo por isso.
O museu de Niterói, por exemplo, merece foto de página inteira e parágrafos de exaltação. Mas será que é tão importante assim? O arquiteto dinamarquês Jorn Utzon concebeu em 1957, três anos antes de Brasília, uma casa de ópera em Sidney que parece um pássaro prestes a voar para cima da baía. Niemeyer fez, nesse museu iniciado em 1991, um disco voador, num desenho muito mais literal, já batizado de “futurismo retrô”, só pontuado por uma rampa sinuosa típica do autor. O destaque fica ainda mais injusto quando se vê que o livro põe quase toda a ênfase na arquitetura feita no Brasil entre 1936 (o prédio do Ministério da Educação no Rio, construído por Lúcio Costa e equipe sob a orientação de Le Corbusier) e 1960, reservando menos espaço para o depois.
Não que só dê Niemeyer entre seus contemporâneos. Há bom espaço textual e visual para Vilanova Artigas, por exemplo, além do próprio Lúcio Costa, e há Affonso Reidy, Warchavchik, Rino Levi, Joaquim Guedes. Há casas como a de Oswaldo Bratke para o casal Maria Luisa e Oscar Americano. Há citações raras a Walter Toscano e Vital Brazil, o que faz do livro uma referência tão importante quanto os de Hugo Segawa e Lauro Cavalcanti. E há algumas páginas para Lina Bo Bardi, que fez o Museu de Arte de São Paulo (1957) e o Sesc Fábrica Pompéia (1977), o que é importante porque ela se contrapôs ao monumentalismo por vezes árido de Niemeyer, investindo numa linguagem que provoca a percepção espacial do indivíduo ao mesclar texturas e cores com o geométrico.
O grande defeito de Niemeyer, afinal, não é o caráter escultórico de sua arquitetura – suas curvas e vazios que dão leveza lírica ao olhar (e por sinal ele não é bom escultor, como provam figuras kitsch como a mão sangrando do Memorial da América Latina e o olho gigante do museu de Curitiba) –, mas o fato de que muitas vezes parece ter sido imaginada para quem olha do avião, a exemplo do próprio conjunto do Ibirapuera (que vale mais pela combinação da Bienal com o MAM e a Oca do que pelos prédios). Daí a importância da análise de suas casas, como a das Canoas (1953), onde Niemeyer atingiu uma rara integração com o meio ambiente e a escala humana.
Mas a presença asfixiante de Niemeyer fica mais clara quando se vê a seleção de obras das gerações posteriores à sua. Há João Filgueiras Lima, o Lelé, e Paulo Mendes da Rocha; e os dois trabalharam com ele. A obra de Mendes da Rocha mais recente, ainda por cima, é a Praça do Patriarca, onde sua intervenção foi tão pesada que obscureceu a vista dos prédios ao redor e, como poderia dizer Niemeyer, o próprio conceito de praça. O Museu Brasileiro de Escultura e três casas de Mendes da Rocha também são fotografados, mas não sua intervenção brilhante na Pinacoteca.
Já outro auto-intitulado herdeiro de Niemeyer, Ruy Ohtake, não é citado; embora Niemeyer jamais usasse seus recursos pesados, é um nome a discutir num livro desses. Dos arquitetos atuais, há alguns casos no final, como os dos escritórios MMDB (Angelo Bucci à frente) e Brasil Arquitetura (Marcelo Ferraz), mas nenhuma menção a Isay Weinfeld, Botti Rubin ou Afflalo Gasperini, ainda que haja fotos de alguns prédios recentes da Nações Unidas. Ao contrário do que ocorreu em outros países latino-americanos em que o momento dourado dos anos 40-60 gerou herdeiros famosos como, no México, Barragán e Legorreta, no Brasil a arquitetura ainda parece ser o samba de um homem só.
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