Home
Home
Aforismos sem juízo
"O desejo é sempre a primeira e a última prova de amor."

     



saiba mais...
Proseando
fonte: O Estado de São Paulo 20 de março de 2005
Parece que está na moda falar mal da prosa. A poesia é sempre pintada como mais glamourosa, excitante, encantadora – comparada com sexo, drible, com tudo que possa sugerir uma espontaneidade perdida, uma lavagem emocional. E ela realmente pode ser tudo isso. Saber poemas de cor e recitá-los, mais que cantar canções, é um espanta-males poderoso; o que memorizei de meus poetas prediletos – Shakespeare, Keats, Dickinson, Yeats, Eliot, Camões, Pessoa, Augusto dos Anjos, Drummond, Cabral, Villon, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Dante, Rilke – é um tesouro verbal & emocional que ninguém me tira e, portanto, que pode me tirar de desânimos. Mas a prosa também!

Está certo que a prosa, por sua estrutura cursiva, pode ser sonífera, cair no palavra-puxa-palavra mesmo quando de vanguarda, etc. Do outro lado, a poesia, por sua carga emocional, pode ser pueril, sentimentalóide, retórica. O que importa não é qual gênero é melhor. A boa prosa, por sinal, pode ensinar justamente a evitar esse tipo de generalização, de rotulagem – e isto sim é que causa bocejo nos dias de hoje, em que tudo continua reduzido a rótulos (direita x esquerda, humanidades x ciências e... homem x mulher). E os melhores trechos de prosa trazem não só essa maturidade intelectual, mas também chances de uma sensação única, de um prazer para os sentidos e a vontade que não tem substituto. Tal como as melhores estrofes poéticas.

Lembro, nesses casos, alguns parágrafos e frases e, mais importante, lembro uma voz, uma melodia de fundo que basta reabrir aquela página para sintonizar com nossa consciência de novo, única, comovente – isto é, capaz de nos mover juntos, de assumir a naturalidade de um rio e seu mundo ao redor, povoado de referências, modos e idéias particulares. A satisfação que me dá ao ler, por exemplo, as páginas iniciais de Brás Cubas ou as finais de Dom Casmurro, ou uma página aleatória de Memorial de Aires, de Machado de Assis, não pode ser explicada só pela admiração (como escreve esse diabo!) e inveja (como eu queria escrever como esse diabo!); tem a ver com a “dimensão narrativa” que a natureza e o cérebro possuem, segundo Ilya Prigogine (O Fim das Certezas) e Antonio Damásio (O Mistério da Consciência); com o poder de captar um espaço-tempo em sua riqueza.

A boa prosa é um jogo, uma tentativa de ordenar aquilo que se sabe inordenável, como a protagonista de Reparação, de Ian McEwan, aprende com o passar da realidade. É claro que existem poemas épicos, mas a coordenada do tempo é mais importante para a prosa, e por isso mesmo é que alguns romances – de Cervantes a Saul Bellow, passando por Austen, Dickens, Tolstoi, Dostoievski, Balzac, Flaubert, Proust, Joyce – dizem mais sobre um período histórico do que numerosos tomos de História. Para ficar num exemplo imediato: como sentir a Alemanha pré-nazista sem ler Thomas Mann ou a pós-nazista sem Thomas Bernhard? E mesmo livros mais intimistas, individualistas, como Angústia, de Graciliano Ramos (um dos mais bem escritos da língua portuguesa), ou mais alegóricos, satíricos, como As Viagens de Gulliver, de Swift (um modelo de estilo, ainda merecendo tradução completa e fiel no Brasil), falam tanto sobre nós falando tanto sobre seu universo.

Muitos desses autores, não por acaso, escreveram poesia e todos a leram intensamente. Dá para sentir nos ritmos e modulações de sua prosa. O artefato literário de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa é carregado de poesia; são figuras de linguagem, usos de métricas, aliterações, metáforas, recursos que valem a classificação de “prosa poética”. Mas a prosa pode ser poética sem escapar do discurso direto e coloquial; ao contrário, nesses casos o resultado pode ser ainda mais poderoso. Pense em Kafka! É uma escrita límpida, como o cristal de um lustre imperial – e serve para projetar sombras, paradoxos, dores que fazem de qualquer ser humano um plebeu. Escrever bem não é lançar efeitos depois de efeitos, cabriolas lingüísticas, firulas infindas.

Tampouco é só na prosa de ficção. Há ensaístas, pensadores e historiadores cuja prosa é, antes de mais nada, um patrimônio da percepção humana; sua argumentação seduz pela elegância que brota da lógica em casamento com a estética, pela clareza que revela a complexidade. Como não se encantar com a prosa refinada de Montaigne e Voltaire ou não se contagiar com os aforismos e silogismos de Nietzsche? E por que será que Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido são dois dos maiores intelectuais brasileiros? Na língua inglesa há muitos estilistas que releio: Gibbon, Burke, Henry Adams, Shaw, Mencken. A inteligência deles é tão vibrante que não deixa o texto aderir à bitola; a coerência é extrema, mas colorida, insinuante, charmosa – cheia de uma característica que só a grande prosa consegue exibir, a espirituosidade. E para quem acha que “científico” é sinônimo de algo chato ou previsível (como quando se fala em “futebol científico”) o melhor é ler Darwin, Bertrand Russell, Stephen Jay Gould, Feynman, Dawkins. São prosas tão memoráveis quanto as dos melhores romancistas.

Estamos precisando de melhor poesia, sim; a que se faz hoje, com exceções (que também bebem na prosa, como, no Brasil, Fabrício Carpinejar), não se compara com a dos autores que citei. Mas a boa prosa, numa fase cultural em que, embora muitas vezes na forma de bobagens esotéricas, o interesse pela história ressurge, depois de tantos choques da realidade que os crédulos julgavam estabilizada, tem uma função essencial – inclusive porque pode ser um antídoto contra a TV-espetáculo, o populismo de direita ou esquerda, a ficção policial telegráfica, a dislexia da maioria dos internautas, a maçaroca acadêmica. Ler um grande prosador é, em síntese, conversar com o amigo mais inteligente que você jamais teve. E todos sabemos como estamos precisando disso.

Ah, e o grande futebol está mais para a prosa poética do que para a poesia prosaica. E o amor pode intensificar o sexo.

AS NEVES DE KILIMANJARO

A agência Magnum divulgou nesta semana uma foto tragicamente linda, a do topo descoberto do Kilimanjaro, que faz boa companhia para a leitura de Collapse, de Jared Diamond, que recomendei na semana retrasada. O impacto da imagem não é só pela ausência de neve, que teria sido causada pelo aquecimento global; é também simbólico, afinal não foi por acaso que, por falar em boa prosa, Hemingway colocou a montanha da Tanzânia como cenário de seu famoso conto, cujo tema é a briga de um escritor contra a solidão e a impotência – a vastidão da natureza que o talento humano não pode abarcar.

O FINO DA CANÇÃO

Se alguém imitasse Nick Hornby, autor do livro 31 Canções, e fizesse uma lista comentada das melhores canções pop brasileiras, quais entrariam? Pop, no caso, é a música jovem pós-rock, ou seja, que tem consciência de uma certa aceleração trazida pelo gênero e, acima disso, do papel comportamental, performático, que um artista pop assume. (Até Frank Sinatra, um admirador podia querer ser Sinatra, mas não necessariamente agir e se vestir como ele. Depois de Elvis Presley, tudo mudou.) Eu poria com certeza as seis seguintes: Mas Que Nada, de Jorge Ben (sambajazz: malicioso, pulsante, convidando à desinibição); Você, de Tim Maia (o começo triste, bossa-novístico, dando lugar para a explosão soul do refrão); Como Uma Onda, de Lulu Santos (hino do relaxamento praiano como filosofia); Me Chama, de Lobão (a fossa é pop); Pais e Filhos, de Renato Russo (variações de andamentos e vozes para falar do mais antigo conflito juvenil, “Você culpa seus pais por tudo/ Isso é absurdo/ São crianças como você”); e Todo o Amor Que Houver Nessa Vida, de Cazuza (transformação do “tédio em melodia”). E talvez Roberto Carlos, Raul Seixas, Mutantes, Paralamas...

POR QUE NÃO ME UFANO

Sobre os Severinos da política nacional, Machado de Assis já escreveu: “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política, nada temos a invejar no reino de Lilipute.” Com tantos anões mentais na farsa de Brasília, não estranha que a população se refugie na TV: a moral novelesca é o consolo enlatado.