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Aforismos sem juízo
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A ficção na fronteira da ciência
fonte: Revista Bravo! 01 de setembro de 2005
Não é de hoje que a ficção se aproxima da ciência, mas recentemente a tendência tem ganhado força. Só neste ano tivemos Saturday, de Ian McEwan, e Never Let me Go, de Kazuo Ishiguro, e agora chega La Possibilite d’une Île, de Michel Houellebecq, para ficar em três exemplos famosos. Não é que a ciência seja o único tema desses livros, mas ela é parte fundamental de todos eles. No caso de McEwan, ela entra por meio do protagonista, um neurocirurgião. No de Ishiguro, é a chave do desfecho de uma história que mal usa termos científicos. No de Houellebecq, já está na a questão central, a clonagem.

Entre os autores vivos, há muitos outros que vêm abordando situações, personagens e questões da ciência. Thomas Pynchon, por exemplo, mostra isso já em títulos como o de uma novela não traduzida no Brasil, Entropy, e o do grande (nos dois sentidos) romance Arco-Íris da Gravidade. Toda sua ficção, na verdade, envolve a pergunta sobre os limites do poder humano de medir, prever e controlar a natureza e a realidade. Ele vê a obsessão irracional que pode haver sob a pretensão do racionalismo, a pretensão de tudo saber e dominar, de catalogar causas e efeitos como se pudessem eliminar todos os vestígios de dúvida e ambigüidade.

No Reino Unido encontramos alguns mais. David Lodge, por exemplo, é autor de Pense!, em que encena as buscas da neurociência para definir de forma material o que chamamos de mente. A.S. Byatt, em Anjos & Insetos, usa o darwinismo como entrecho de uma história sobre relações sociais contaminadas por instintos e competições. John Banville fez de Kepler um romance sugestivo sobre o sonho do cosmo em harmonia musical.

Alguns nomes do teatro e do cinema também poderiam ser invocados, como o dramaturgo Michael Frayn, autor de Copenhague, peça montada no Brasil pela companhia de Oswaldo Mendes, Arte Ciência no Palco; ou o brilhante roteirista Charlie Kauffmann, que em filmes como Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente Brilhante coloca questões como memória e identidade.

Entre os autores do passado, basta lembrar que temas científicos aparecem na ficção de Voltaire, Diderot, Goethe, Molière, Poe, Zola, Thomas Mann e muitos mais. Para não falar da pintura de Leonardo a Picasso e às instalações das bienais. Além disso, há a chamada ficção científica, que teve grandes autores, como H.G. Wells e Jules Verne, no período fascinante dos aventureiros da Era Industrial, e depois os críticos do culto à ciência, como Arthur Clarke e J.G. Ballard.

Mas quais os motivos por que hoje a ciência voltou a interessar autores de primeira linha como McEwan? Antes de mais nada, sua propagação na sociedade moderna – na forma de tecnologias como celular e internet, na medicina, na pauta de jornais e revistas – é evidente. Debates sobre a clonagem da ovelha Dolly, a ortotanásia de Terri Schiavo e as viagens de robôs para Marte, Saturno e cometas, para não falar das fotos de telescópios como Hubble que mostram explosões estelares, quasares e supernovas, fazem parte do cotidiano geral. Daí também o sucesso de livros como os de Stephen Hawking que tentam explicar esse esquisito mundo novo e seus buracos negros e antimatérias.

Este é outro motivo: os cientistas cada vez escrevem mais e escrevem melhor. Há autores como Oliver Sacks, Richard Dawkins, Antonio Damásio, V.S. Ramachandran, Steven Pinker e Freeman Dyson que fazem narrativas científicas que prendem mais que muitos romances. A leitura de biografias e ensaios de gente como John Gribbin e James Gleick equivale a uma pós-graduação. Tal conjunto de autores, que até ganhou um movimento chamado “terceira cultura” (a simbiose entre as humanidades e as ciências propriamente ditas) e capitaneado pelo site Edge (www.edge.org), tem olho agudo sobre as percepções produzidas pela literatura, pelas artes e pela filosofia, até porque sabem que os grandes cientistas não raro se inspiraram em grandes clássicos das letras (Newton em Descartes, Darwin em Milton, etc.).

Dawkins, por exemplo, protestou contra o grande poeta Keats por ter escrito que Newton tirou a poesia do arco-íris ao decompor a luz num prisma, ou seja, ao “explicar” um fenômeno belo da natureza. Damásio foi a Espinosa para tentar construir uma teoria do cérebro que concilia corpo e mente, organismo e consciência; se não lançou luzes sobre o filósofo holandês, ao menos tem lançado luzes sobre como o cérebro precisa das sensações e emoções até mesmo para sua regularidade fisiológica. E Pinker, digamos, ataca Freud, mas sabe que Freud bebeu nos grandes “insights” sobre o comportamento humano produzidos por Sófocles, Shakespeare, Leonardo e outros gênios literários e pictóricos.

Que os cientistas estejam se reaproximando das humanidades e das artes – depois de um período em que passaram fechados nas academias e laboratórios acreditando numa produção pura e perfeita que resolvesse o enigma do universo e da vida com uma única fórmula – é obviamente um estímulo para que também os humanistas e artistas avancem nos territórios científicos, aprendendo e debatendo com eles. Já acabou o tempo em que um sociólogo, um psicólogo ou um crítico cultural podia ignorar esses livros que divulgam e desvendam campos novos do conhecimento. Uma biografia como a de Newton por Gleick não é apenas um relato da vida de alguém famoso e “ultrapassado”; é toda uma aula sobre a fundação do pensamento moderno, da sensibilidade contemporânea.

Um terceiro motivo para a onda de romances com personagens ou temas da ciência é ligado à própria necessidade de renovação literária que a atualidade parece pedir. O romance descritivo e linear do século 19 é, a não ser quando na mão dos gênios, tem sido relativamente substituído pelo cinema e pela TV, que contam histórias com a eficiência das imagens sonoras em movimento. O romance fragmentário e intelectualizado do século 20 esgotou de certo modo as opções formais, pois já não é possível pensar num recurso técnico que já não tenha sido utilizado ou misturado com outro. O romance do século 21 talvez esteja retomando em alguma medida a continuidade narrativa da ficção tradicional, mas procurando expandi-la para investigações da natureza humana que são novas ao menos em terminologia. E nisso a ciência pode ajudar muito.

Por quê? Porque a crença dita pós-moderna na idéia de que “tudo já está dito” está sendo demolida pela inacreditável seqüência de descobertas científicas e tecnológicas dos últimos 20 anos, digamos. Aliás, não só por elas: também a realidade histórica vem ensinando que muitas das teorias da modernidade como as de Marx e Freud, embora seminais e geniais, já não são mais aceitas integralmente; conceitos como super-estrutura, mais-valia, id ou complexo de Édipo estão sendo testados e repensados pelos fatos e pelos novos instrumentos de pesquisa e análise. O capitalismo não morreu – está mais vivo do que nunca, com todas as suas contradições e falhas – e o irracionalismo não vingou como porta para libertar o indivíduo da repressão e lançá-lo na suposta liberdade dos sonhos. Nossa era soa anti-heróica por derrubar essas utopias todas, mas o tempo há de mostrar que há um senso de grandeza, de ousadia, nesse oceano de revisionismo atual.

Quando lemos sobre as experiências, viagens e teorias duramente elaboradas no momento para resolver, por exemplo, os paradoxos entre a física relativística e a física quântica, nos damos conta de que o ser humano ainda ignora profundamente a realidade exterior, sobretudo quando observa fenômenos micro e macro. E quando lemos sobre os casos clínicos do dr. Sacks, do dr. Ramachandran e do dr. Damásio, que tratam de pessoas que foram afetadas por perdas de regiões cerebrais, nos damos conta de que o visível e o invisível se comunicam com muitos mais intensidade e complexidade do que tendem a acreditar a convenção romântica e a positivista. Além disso, uma sociedade em que novos acessos à informação e novas formas de sobrevivência existem por causa de bravos cientistas e tecnólogos é, naturalmente, uma sociedade em que as relações humanas mudam e, assim, se tornam tema rico para a ficção. É da história do gênero romance estar aberto aos influxos da história.

Com Pynchon, McEwan, Ishiguro e os outros, a ciência voltou a nutrir a ficção de uma forma fértil. Não se trata da fantasia apocalíptica ou redentora da maior parte da tal ficção científica, na qual clonagens e cirurgias e máquinas aparecem como ameaças à humanidade ou como sua salvação, a exemplo do que vemos em autores vulgares como Michael Crichton. Trata-se da ciência como produtora tanto de saber como de ceticismo, capaz de provocar com sua abertura à novidade as questões éticas mais intrincadas. Que bons autores estejam nessa tendência é bom, acima de tudo, para a ciência da ficção.