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| Santos-Dumont, a difícil busca da leveza |
| fonte: O Estado de São Paulo |
23 de outubro de 2006 |
Paris, 1891. Santos-Dumont, 18 anos, chega à capital francesa e fica encantado com “a grandeza e o progresso”. Sobe por elevador ao topo da recém-construída Torre Eiffel, um prodígio da engenharia, uma estrutura esguia de metal pesado com 300 metros de altura. Na rua, carros a motor. No ar, balões também motorizados. Era como se o mundo imaginado por Julio Verne que Alberto lia na infância tivesse começado a se tornar realidade. Levaria seis anos para ele voar num desses balões. E apenas mais um para ele construir seu próprio, o Brasil – um balão de hidrogênio em forma de pêra com o qual ascenderia aos céus em mais de 200 oportunidades. E que já trazia uma inovação técnica: o revestimento era feito de seda japonesa, tão leve que parecia um origami da Belle Époque.
Paris, 1906. Dia 23 de outubro. Santos-Dumont, 33 anos, acorda cedo, caminha até o hangar, abre a porta – um sistema de corrediça que ele mesmo inventou – e deixa o sol iluminar seu avião, o 14 bis, também chamado de Ave de Rapina, com o qual pretende dar uma rasante de ousadia e elegância sobre a cidade-luz. O 14 bis tem asas arqueadas para cima, como as das águias, compostas de diedros de seda em traves de bambu – madeira que tinha a combinação de leveza e resistência adequadas – e fixadas por cordas de piano, em vez dos pesados cabos de aço. O franzino aeronauta, com pouco mais de 1,50 metro, senta ao comando. Tenta decolar várias vezes. Às 16h45, enfim o avião se levanta a 3 metros do solo e percorre os 25 metros exigidos para ganhar o Prêmio Archdeacon. Era a primeira exibição pública de um vôo de uma máquina mais pesada que o ar. Glória nas alturas.
Guarujá, 1932. Santos-Dumont, sem voar há 22 anos, se aborrece ao ouvir notícias da reação ao Movimento Constitucionalista de São Paulo, em que aviões de guerra são usados na “luta entre irmãos”. Está em depressão, frágil, atormentado, barba por fazer. A esclerose cada dia o afeta mais. Não usa mais ternos, já não lança modas. O ar pesa sobre sua cabeça. Antes famoso por seu estilo dândi de se vestir – com seu chapéu panamá, usado com as abas para baixo, e suas gravatas vermelhas, que esvoaçavam enquanto ele pilotava suas invenções sobre o Rio Sena –, ele se fecha no quarto de hotel, apanha uma das gravatas e comete suicídio. Deve ter pensado alguns minutos em sua mãe, que também se matara quando ele tinha 28 anos.
A vida de Santos-Dumont foi sempre essa busca de leveza – seda, bambu, música, paz – que nem sempre superou a realidade. O progresso era sua fantasia. Quando se desfez, sua carreira perdeu o rumo. Mas naqueles 12 anos de contínua invenção, do balão Brasil à aeronave Nº 20, Demoiselle, a mãe dos ultraleves, ele havia construído uma obra única. Havia perseguido e realizado o sonho de permitir que o homem manobrasse caminho pelo ar, como o “carro aéreo” que batizou liricamente de Baladeuse. Havia circundado a Torre Eiffel em 19 de outubro de 1901 com o dirigível Nº 6, em formato de charuto, que queimou todos os recordes da navegação aérea. Havia desenhado coreografias também com monoplanos, biplanos e hidroplanos. Dançar elegantemente com o vento era a obsessão com que acordava e dormia.
Santos-Dumont encarava tudo como uma aventura – mas com a séria missão de dar à humanidade uma liberdade inédita, ansiada pelo menos desde os antigos gregos. Seu pensamento era, no entanto, mais individual, “esportivo”, do que coletivo ou industrial. Ele queria que cada pessoa tivesse a possibilidade de usar ou ter uma aeronave para se deslocar no cotidiano. Não por acaso a Demoiselle, a “libélula” ou “senhorita”, foi sua maior criação do ponto de vista da posteridade – o projeto mais próximo da perfeição criado por ele. Era com ela que Alberto, que gostava de assinar Santos=Dumont para acentuar sua dupla nacionalidade (igualmente brasileiro e francês), ia de casa até o restaurante – onde jantava com nobres e artistas – e do restaurante até os Champs-Elysées, exibindo glamour e otimismo.
Raros, afinal, podem dizer que realizaram sonhos de infância como ele. Nascido em Cabangu, hoje Palmira, em Minas Gerais, ele cresceu na fazenda de seu pai em Ribeirão Preto (SP), onde passava horas lendo Verne e admirando os mecanismos das modernas máquinas de triturar café, e estudou em Campinas numa escola de significativo nome, Culto à Ciência. A mãe era brasileira, Francisca de Paula Santos, e o pai francês, Henrique Dumont. Muito rico, Dumont – que morreria em 1902 – decidiu mandar o filho para Paris quando chegou à maioridade. Sem isso, a paixão infanto-juvenil de Alberto por motores e balões talvez não tivesse ido muito mais longe. No mundo todo havia uma febre pela navegação aérea, mas a capital francesa era o centro do mundo e concentrava grande número de aventureiros e inventores.
Quando fez seu primeiro vôo em balão com Alexis Machuron, em 1897, Santos-Dumont não ficou fascinado apenas com a diversão. Uma questão o deixou ansioso: como seria colocar um motor de combustão num balão de modo que este pudesse ser controlado? Seu prazer não era apenas voar; era controlar o vôo. E ele sabia que isso envolvia dificuldades de toda ordem – econômicas, intelectuais, físicas. Em cada uma de suas baladas aéreas havia muito risco e trabalho. Manobrar dirigíveis e aviões trazia possibilidade de incêndios e quedas – e Santos-Dumont viu seu Nº 1 dobrar ao meio depois do choque com o solo, bateu muitas vezes em árvores e caiu com o Nº 6 na Baía de Mônaco. Além disso, havia muita competição, tanto que em duas ocasiões o aviador brasileiro encontrou suas criações esfaqueadas por alguém na calada da noite.
Cada tentativa de vôo exigia coragem e esforço em doses incomuns. Pés, mãos e costas eram envolvidos no acionamento de alavancas e no equilíbrio do peso total. O próprio vôo de cem anos atrás, no 14 bis, não saiu como planejado, apesar do prêmio. A estabilidade lateral da aeronave – que tem leme e estabilizadores à frente, o que até hoje leva muita gente a pensar que se trata da popa – se mostrou prejudicada logo depois da decolagem. Ela chacoalhou muito e Santos-Dumont precisou desligar o motor para fazer o pouso, que aconteceu bruscamente.
Mesmo assim, não sem razão, ele ficou exultante com os primeiros resultados daquele dia histórico. “A sensação é maravilhosa”, disse. “Senti como se estivesse num balão impulsionado por uma força oculta” – uma declaração que ecoa o positivismo de sua formação escolar. Em sua crença, bastariam algumas modificações para que conseguisse voar quilômetros. Em 12 de novembro daquele 1906, ele voaria 220 metros em 21 minutos e 2 segundos – conforme registrado em seu relógio de pulso Cartier, feito sob encomenda para o dândi brasileiro. O 14 bis, porém, só voaria mais uma vez, por distâncias menores. Seu biplano estava longe do design ideal.
O futuro estava mais próximo daquilo que dois inventores americanos, os irmãos Orville e Wilbur Wright, vinham fazendo em segredo desde 17 de dezembro de 1903. Nas cercanias de Kitty Hawk, Carolina do Norte, seu avião Flyer atingiu a distância de 258 metros em 59 segundos. Embora mais lento e menos divulgado do que seria o vôo do 14 bis três anos depois, e embora ajudado por um trilho, o invento dos Wright se revelou de um design mais eficiente, com meios de controle lateral que permitiam maior estabilidade aerodinâmica. Os americanos estavam mais interessados em patentear e lucrar com sua criação do que em registrar recordes. Tanto que já em 1909 venderam seus aviões para o Ministério da Guerra de seu país, a US$ 25 mil cada um.
Santos-Dumont, que nesse período colecionava frustrações com seus inventos Nº 15 a Nº 19, não gostou do que viu no verão de 1908: o primeiro vôo público na Europa do Flyer, que ficou no ar por 2 horas e 18 minutos. Wilbur Wright, ainda que desprovido da sofisticação cosmopolita de Santos-Dumont, passou a ser o herói da vez: dominava a atenção da classe rica de Paris, era assunto em todos os jornais e até lançou a moda de usar boné. Santos-Dumont, em suas memórias, se queixaria da “ingratidão” daqueles que até pouco tempo antes o “cobriam de glória”. Mas não desistiu de inventar.
O sucesso do Demoiselle chamou de novo a atenção para “le petit Santos” – assim chamado por sua baixa estatura pelo franceses, que pronunciavam “Santô”. Em setembro de 1909, ele subiu em sua máquina e foi visitar um amigo em Buc, a oito quilômetros de Paris. Levou cinco minutos e meio, o que significa uma velocidade aproximada de 90 km/h – ao que consta, a maior já atingida até então por um humanóide em cruzeiro pelos ares. Alguns dias depois, voou para o castelo d’Aion, a 18 quilômetros, em 16 minutos; como se não bastasse, chegou a uma altitude de 196 metros – também recorde. Com autorização de Santos-Dumont, o avião passaria a ser fabricado por Clement-Bayard, produtor de carros: foram 300 unidades. O preço de cada uma? US$ 1.250.
Mas a retomada da glória pouco durou, dando lugar a tormentos que o perseguiriam até o fim da vida. Em janeiro de 1910, sofreu grave acidente com sua Demoiselle. Não se sabem os detalhes, apenas que faltou pouco para que morresse. Foi seu último vôo. Visões duplas e vertigens poderosas o impediram de seguir a carreira. Pouco tempo depois, ouviu do médico que tinha esclerose múltipla. Tampouco existe certeza de que essa era sua doença; de qualquer modo, o esgotamento psíquico era claro. Seu contato com o céu agora se resumiria a observá-lo pelo telescópio.
Depois de alguns anos recluso no litoral francês, em Bénerville, Santos-Dumont viveu mais uma decepção. Com o estouro em 1914 da 1ª Guerra Mundial, que levaria embora seu adorado mundo da Belle Époque, sua casa foi revistada. Suspeita? Seu telescópio era de fabricação alemã, e os vizinhos desconfiavam que Santos-Dumont transmitisse informações para o inimigo. A polícia pediu desculpas, mas ele ficou tão aborrecido que queimou todos os seus documentos, incluindo projetos e cartas importantes. Mais deprimente ainda era ver os aviões usados para guerra em vez de transporte e esporte. Numa frase com sua típica mistura de esnobismo e autocrítica, em 1915, comparou o fato ao uso de uma faca, que pode servir para cortar queijo gruyère e também para matar. “Fui tolo em ter pensado só no queijo.”
É curioso como Santos-Dumont reagiu a isso, confirmando seu temperamento melindroso e melancólico. Era como se fosse o culpado pela guerra – quando nem mesmo eram seus aviões que estavam sendo usados. No máximo, poderia ser acusado de ter se envolvido na utopia de fazer o homem voar, ao lado de dezenas de outros inventores mundo afora, sem pensar nas conseqüências do ato. Mas tanta auto-acusação não fazia sentido. À imagem oficial de que teria entrado em depressão ao ver o uso violento de sua invenção, é preciso somar outros fatores, como a doença, o fato de ter sido ultrapassado por concorrentes, o desfecho daqueles anos dourados de Paris. E lembrar que ele não é “o” pai da aviação, mas um dos pais.
Raros seriam seus momentos de serenidade depois disso. Em 1918, ganhou do governo brasileiro uma casa em Petrópolis, no Morro do Encanto, que batizou de A Encantada. Já pelo nome sugeria o refúgio da realidade. Do lado de dentro, algumas de suas invenções mais despretensiosas, como os banquinhos altos para jantares que dessem a sensação de estar no ar, a escada com degraus para subir com o pé direito e o sistema de baldes com água fria e quente para os banhos, reforçavam a sensação de um ambiente de Alice no País das Maravilhas. Santos-Dumont tinha também uma propriedade em sua cidade natal, onde cultivava orquídeas, e um casarão nos Campos Elísios – os de São Paulo.
Passava cada vez mais tempo no Brasil, mas de vez em quando ia à Europa para participar de movimentos fracassados pela desmilitarização das aeronaves. A partir dos anos 20, começou a ir também para se internar em clínicas de repouso na Suíça e na França. De vez em quando ainda tentava fazer uma invenção. Tentou, por exemplo, combinar motor e esqui para subir as montanhas de St. Moritz, invento que batizou de Transformador Marciano. Mas já não tinha forças para atividades físicas e preferia usar o tempo lendo livros de poesia.
Sobre sua vida amorosa, pouco se sabe. Quis casar com a filha de um amigo, Janine, mas o pai – seu ex-colaborador, Gabriel Voisin – alegou a diferença de idade, 36 anos, para afastar a idéia. Afora arroubos de paixão e pedidos de casamento, como o que também teria feito à mecenas do modernismo Yolanda Penteado, nunca teve relacionamento duradouro com ninguém.
Ingênuo e genial, sentia a solidão cada dia mais insuportável. Ao se matar, aos 59 anos, conseguiu que a guerra entre tropas federais e paulistas fosse suspensa por três dias, em luto oficial decretado por Getúlio Vargas. Adoraria saber que conquistou outro hiato de leveza nas sombras do progresso. |
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