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Aforismos sem juízo
"O desejo é sempre a primeira e a última prova de amor."

     



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Apagão de idéias
fonte: O Estado de São Paulo 26 de novembro de 2006
Se existe algo em comum, apesar das doses variadas, em quem “governa o Brasil há 500 anos”, como gosta de dizer o presidente, é o que o próprio governo Lula demonstra à perfeição: a aliança entre a incompetência e o interesse. Desde o final das eleições, os exemplos foram muitos. Por mais que os ditos analistas insistam em detectar uma maturidade democrática no País e no presidente, ou prefiram olhar o pouco que se avançou em vez de tratar do muito que falta avançar, os fatos e os dados seguem refutando as ilusões. O governo, mesmo popular, continua perdido nas decisões e voraz nos desvios.

O apagão aéreo é lamentável não só pelo tormento que causa aos cidadãos, mas também pela maneira como o governo reagiu a ele. Quando escrevi que achava estranha a afobação com que se jogava a culpa exclusivamente sobre os pilotos americanos, que teriam desligado o transponder do Legacy e ainda brincado de piruetas, fui mais uma vez acusado de, digamos, nacionalismo insuficiente. Agora não há pessoa bem informada que não saiba que o maior acidente de avião da história do Brasil – “nunca antes”, etc. – se deve ao colapso do sistema de controle de vôos, causado pelo corte de verbas e loteamento de cargos. Gente séria não sai decretando culpa sem posse de informações transparentes.

Nessa odiosa praxe de transferir responsabilidades, Lula, aliás, é o exemplo número 1. Ele nunca assume nada; em toda crise se omite como um tatu-bolinha. Até agora não vi uma declaração ou discurso em que trate do problema dos aeroportos e traga para si a tarefa de tomar e cobrar medidas com prazos. Só sabe ser líder na hora de pegar o microfone ou posar para as fotos. Como não aproveitou o tempo em que não exerceu cargos públicos para se preparar, parece incapaz de administrar uma padaria. Como vai saber o que fazer num tema complexo como esse? Melhor deixar o ministro, Waldir Pires, passar vergonha diante das câmeras. Eis a diferença entre delegar e disfarçar.

Para quem fala tanto em Juscelino Kubitschek, foi constrangedor ver Lula culpando o câmbio fixo do primeiro mandato do governo anterior pela crise na agricultura, um dos fracassos mais ostensivos de sua gestão. (Isso para não falar na bravata de que queria a solução da crise do Incor “em 48 horas” – e pelo jeito ela não virá nem em 48 dias.) Mais uma vez, o cerne do problema está no fato de que o governo não sabe o que fazer na área. Fala em agricultura familiar e dá dinheiro para o MST, mas não pode abrir mão dos dividendos dos grandes produtores, que fizeram do cerrado um dos principais fatores de melhora no IDH brasileiro. Entre José Rainha e Blairo Maggi, quem fica de fora é a exploração sustentável e democrática do potencial agrícola, bloqueado pela falta de infra-estrutura e pela desvalorização da Embrapa. Alguém imagina JK agindo da mesma forma?

Outro sintoma do despreparo desse governo é a quantidade de versões que surgem para cada questão importante do futuro breve. Há ministros contra e a favor da reforma política, da tributária, da previdenciária, etc. Ora se fala em cortar os gastos públicos, ora se diz que não é preciso cortá-los. Temas como Bolívia, meio ambiente, “democratização da informação” e taxa de juros também levantam sinais dúbios. (Já outros temas, como cultura, esportes e turismo, nem sequer aparecem, reparou?) O resultado é que não existe uma agenda que permita planejar mudanças importantes para que o crescimento do PIB – que será igual ao do governo FHC, numa época em que o mundo cresce mais – se aproxime do “espetáculo” prometido.

Ninguém sabe se é melhor tratar de pontos específicos em alguns setores para concentrar esforços na maior das prioridades. Por exemplo: em vez de reforma política, complicada até por ferir os planos de quem a decidiria (como a correção das representações estaduais), talvez fosse o caso de só instituir no momento a fidelidade partidária e investir na reforma tributária e trabalhista de verdade, que reorganizasse a federação, desonerasse o emprego, reduzisse a carga do contribuinte. Mas não; no Brasil sempre se opta por ajustes em vez de reformas, por conchavos em vez de consensos. (E mesmo os ajustes terminam não sendo respeitados: se a cláusula de barreira funcionasse, Aldo Rebelo, o Anacrônico, não poderia ser presidente da Câmara.)

A ligação com o PMDB é a melhor tradução disso. Lembro que escrevi que o PT seria um PMDB do século 21. Mas tantas foram as lambanças dos “companhero” que Lula, fingindo não ter nada a ver com elas, botou o PT na parede, como retrato do passado, e fez do próprio PMDB – de Sarney, Barbalho e outros chefes de oligarquias que, como os mortos-vivos, sempre voltam – o suporte do lulismo, o único “ismo” em vigor no Brasil. Enquanto isso, continuam debaixo do tapete as sujeiras cometidas no mensalão (ou “sacolão”, como rebatizou o vice-presidente José Alencar), no dossiê Vedoin, etc. Delúbio, Valério, Waldomiro e Gedimar, para citar apenas quatro cavaleiros do apocalipse petista, continuam passeando pelas ruas como se nada tivessem feito. Mas a PF, sim, faz uma operação a cada dois dias... A história é, de fato, uma humorista.

UMA LÁGRIMA (1)

Para Robert Altman, morto aos 81 anos. Os obituários descreveram sua carreira independente, mas poucos observaram os custos que essa independência traz. Depois do hilário M.A.S.H. (1970) e de Nashville (1975) – o filme que fez pelo cinema americano o que Jules e Jim, de Truffaut, fizera pelo cinema francês (e mundial), com tom improvisado e ágil, nem por isso menos pensado –, ele fracassou em alguns projetos tolos, como Popeye, e demorou a acertar a mão de novo. Só em O Jogador (1992) e Short Cuts (1993) chegou perto; Assassinato em Gosford Park (2001) também tem qualidades. O que eu mais admirava era seu gosto por mergulhar a cada filme num universo particular – a moda, a própria indústria do cinema, a guerra, a música country – e dele tentar extrair histórias que mostram a distância entre vaidade e verdade.

Outra lágrima para Philippe Noiret, o ator francês, 76 anos, famoso por filmes mais emotivos como Cinema Paradiso e O Carteiro e o Poeta, mas que também trabalhou com Bertrand Tavernier, Mario Monicelli e Ettore Scola. Começou no teatro sob direção de Jean Vilar e adotou uma interpretação que parece descontraída, livre de rebuscamentos, e no entanto é precisa e incontornável. Adieu.

UMA LÁGRIMA (2)

Para Milton Friedman, como não? Discordei sempre de suas idéias centrais, mas é preciso dizer com ênfase que ele, influenciado por Hayek, as defendeu com talento numa época em que estavam longe do consenso. Era a favor do “Estado mínimo”, restrito a algumas atividades sociais e a atuar como um “guarda de trânsito”, como se não fosse um agente indutor, regulador e compensador muito importante. Com isso, fez algum mal ao liberalismo, que há muito tempo havia abandonado a crença no “laissez faire”, no livre mercado absoluto – que não é, na realidade, praticado em país nenhum. Mas Friedman, pouco traduzido no Brasil (ao contrário de Gramsci e Althusser, digamos), argumentava contra o intervencionismo em nome da liberdade de escolha, não da forma moralista como alguns conservadores o fazem atualmente. E afirmar que a América Latina praticou seu “monetarismo” é atribuir a ele mais defeitos do que já tinha...

VALORES VIRTUAIS

Escrever um blog não é só fazer links, como vejo por aí. Citar os textos dos outros, em vez de dar suas próprias opiniões, é o trabalho mais fácil do mundo. Blog também não é só para fazer enquetes – que, claro, turbinam o número de comentários – ou empilhar artigos que não couberam no jornal. Como diário, funciona quando é de alguém numa situação especial, daí os blogs de grávidas, prostitutas, etc., ou então de um desconhecido ou pseudônimo, caso contrário os insultos pessoais serão dominantes. Como jornalismo, pode dar “furos”, mas eles duram alguns minutos no máximo. Blog é conversa: é lançar um tema e depois participar da discussão quando ela trouxer argumentos.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Foi divertido ler na semana passada as comparações de Lula com Zelig, Macunaíma e o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. Precisou chegar o segundo mandato para perceberem?

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Bienal de São Paulo às moscas. Esperavam pelo menos 1 milhão de pessoas, não foram mais que 400 mil – número, diga-se, inchado por visitações escolares. O público não raro costuma ser mais sensato que a crítica.