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Aforismos sem juízo
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O caos segundo William Kennedy
fonte: Cosac Naify 01 de janeiro de 2010
“Os escritores brasileiros não sabem bater escanteio”, teria dito um que sabia, Nelson Rodrigues. O que o dramaturgo e cronista de futebol quis dizer é que uma literatura precisa de autores que saibam desempenhar as funções práticas, que saibam dar continuidade aos lances narrativos, em vez de apenas empilhar confissões ou fantasias. William Kennedy, com os livros dessa que ficou conhecida como “a série Albany”, é tão eficiente no escanteio quanto um Zico. Põe a bola onde quer, na cabeça do leitor, com o gol à frente.

Talvez por causa da adaptação feita por Hector Babenco em seu período hollywoodiano, com Jack Nicholson, Ironweed se tornou o livro mais conhecido de Kennedy, especialmente no Brasil. Mas este O Grande Jogo de Billy Phelan – que compõe com Legs e Ironweed uma trilogia que se passa em sua cidade natal, Albany, capital do estado de Nova York – é considerado o melhor romance do escritor americano nascido em 1928, roteirista de filmes como Cotton Club, de Francis Ford Coppola.

Publicado em 1978, o livro flui como um jogo tenso, num encadeamento vigoroso de cenas, sem tempos mortos nem firulas. Billy é um jogador, viciado em pôquer, boliche, turfe e tudo que envolva sorte e emoção forte, e atravessa os anos da Depressão americana com uma mistura de energia e resignação, entre vitórias e derrotas, como se quisesse um resgate da criança em si e ao mesmo tempo não visse salvação. Cenas de violência se sucedem, nunca como apelo superficial, mas para se opor aos que querem, como na gravura de Maxfield Parrish, “impingir a idéia de que a vida era organizada”.

Já a abertura, com a sequência do boliche, é um retrato do caos. Billy Phelan, como o “motorcycle boy” de Coppola, poderia ser tudo, mas não quer ser nada. Kennedy, ex-jornalista esportivo, conseguiu ser o que quis. Escreve como digno herdeiro de grandes nomes como Ernest Hemingway e Dashiel Hammett. Tudo é direto, seco, construído com descrições breves e ótimo ouvido para diálogos. O leitor segue Billy Phelan como ao craque em ação.