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Aforismos sem juízo
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O maior dos escândalos
fonte: O Estado de São Paulo 31 de janeiro de 2010
O maior dos escândalos brasileiros é o menos comentado: os resultados da educação. Na semana passada o Ipea divulgou que apenas metade dos brasileiros de 15 a 17 anos está cursando ou concluiu o ensino médio. Temos, portanto, 5 milhões de jovens que estão muito atrasados ou então abandonaram a escola. E o que eles fazem? Muitos trabalham, mas com baixa probabilidade de chegar a empregos melhores, de subir na vida. Outros vão parar no crime. E muitas engravidam precocemente, uma das tendências sociais mais fortes do Brasil contemporâneo. Essa geração pode ou está prestes a votar, mas mal consegue entender conceitos mais abstratos e se expressar coerentemente e mal tem o direito de sonhar em ir além do que os pais foram em bem-estar e felicidade. Outra notícia calamitosa da educação brasileira, nos últimos dias, diz que quase metade dos professores da rede paulista não passou nas provas, ou seja, não tem domínio sobre o conteúdo que deveria transmitir aos alunos. O brasileiro médio, enfim, fez pouca escola e fez uma escola ruim.

Se você acha que isso tem pouco a ver com a economia, afinal estaríamos crescendo a quase 5% ao ano, está enganado. O PIB não é tudo. Gerar empregos é fundamental, e algumas medidas ajudaram a aumentar um pouco a formalidade (empregos de carteira assinada); mas é preciso gerar mais empregos qualificados, que formem cidadãos mais críticos e criativos, com mais perspectivas de melhora, e que sejam capazes de competir com os estrangeiros, de oferecer vantagens relativas. E isso não tem acontecido no ritmo necessário. Há uma relação direta entre a baixa qualificação e o fato de que o Brasil ainda vive de exportações baseadas em commodities, com participação cada vez menor dos bens industriais e dos produtos com densidade tecnológica. Alguém pode objetar que a soja e a carne que vendemos são frutos de ganhos de produtividade obtidos pelo conhecimento divulgado por instituições como a Embrapa. Bem, a afirmação seria apenas mais uma demonstração de como é importante ter a informação e o método. No semiárido, na serra gaúcha ou no cerrado central, vi numerosos exemplos disso, da diferença que fez a educação de muitos jovens em escolas técnicas e faculdades de agronomia.

Essa educação rarefeita, que mesmo nas exceções tende a padecer do esquema “decoreba” (em que datas, nomes e fórmulas são memorizadas mecanicamente, com escassa relação com a observação da vida real), cria outros problemas que me parecem subestimados. Um deles é a custosa demora em explorar nichos que até seriam de bom potencial, como a chamada “indústria criativa” (que envolve mídia, turismo, informática e outros serviços que em países como a Alemanha já pesam mais no PIB do que a indústria automobilística) e diversos campos científicos novos, como a nanotecnologia. Como a cultura brasileira é conservadora, supõe-se sempre que o progresso é inercial; se estamos melhores em anos recentes, estaremos melhores nos próximos também... Mas a história, essa dama ardilosa, não anda em linha reta. De repente um setor que parecia menor do mundo produtivo se torna um divisor, e quem não fez esforço consciente em aderir a ele tomará um susto do futuro. Já imaginou se tivéssemos continuado com a reserva de mercado da informática que PMDB, PT e os militares defendiam nos anos 80? A revolução digital teria passado ao largo, ou ainda estaríamos usando computador TK 3000.

Por falar em cultura, são valores propagados pela nossa vida cultural – em produtos menos sofisticados ou mais, de telenovelas a ensaios acadêmicos, e no cotidiano das conversas entre pais e filhos, professores e alunos, chefes e subordinados – que atrapalham a percepção desses problemas. Informação e método não fazem apenas o trabalhador ser mais produtivo; fazem o indivíduo enfrentar a existência com mais ética, menos desperdício e mais espírito coletivo. E, no entanto, o que temos? Temos cronistas que morrem de medo do progresso e chegam a dizer que “não nascemos” para coisas como ciência e tecnologia. “Nosso negócio” é jogar futebol moleque, cantar canções para as morenas, fazer festa... Os mesmos que se dizem nacionalistas são os que desdenham bolsões de excelência como Embrapa, Embraer, Projeto Genoma, etc. E são os mesmos que nas aulas diziam para o professor “não levar tão a sério”, forçando a inclinação para o comodismo e a palpitagem, para a discussão de vaidades e futilidades em vez de ideias. Para essa gente, ler é chato, matemática é chato, arte é feita apenas de espontaneidade. E esperto é quem sonega, quem se dá bem sem precisar gastar os olhos em cima dos livros.

Os alunos estão desistindo, os professores também começaram a desistir, mas o Brasil está quase lá... Automaticamente aprovado a cada ciclo.

CADERNOS DO CINEMA (1)

Mais uma vez há boa distância entre o que lemos ou ouvimos a respeito de um filme e o que ele de fato é. Sobre Amor Sem Escalas, do mesmo diretor do badalado Juno, Jaison Reitman, li que seria sutil, crítico e sei lá mais o quê. Trata-se de um filme competente, conduzido em bom ritmo, com boa atuação de George Clooney, que não precisa fazer caretas para mostrar as dúvidas debaixo de sua aparente serenidade. Só isso. Como tantos outros filmes que vemos, americanos ou não, o que ele quer mesmo é confortar as pessoas, manter a fábrica de “esperanças” em funcionamento contínuo, e não cutucar seus defeitos e ilusões.

Por alguns momentos achei que o enredo poderia ganhar uma força nova. Clooney, afinal, faz um sujeito que não tem chão, não tem casa, não é casado – e parece plenamente seguro dessa opção, a tal ponto que o noivo de sua irmã diz invejá-lo por ser mais livre e feliz. Mas ele logo encontra alguém que seria seu espelho, “mas com uma vagina”; e ele cai no mais antigo conto de fadas da humanidade, aquele da alma gêmea, da metade da laranja, etc. Essa ingenuidade insuspeitada fica evidente a seguir, e seu discurso ao final é de falso triunfo; ou seja, ser solteiro não era uma opção tranquila, apenas algum trauma do passado. E aí todo mundo vai para casa confiante em que é melhor estar mal acompanhado do que só.

CADERNOS DO CINEMA (2)

Da coletânea recém-lançada do grande crítico de cinema americano, Farber on Film, num texto de 1943: “O problema dos filmes é que eles raramente chegam abaixo da superfície de uma história e de seus personagens, que seu todo raramente é tão bom quanto suas partes, e que as personalidades de seus atores normalmente são mais poderosas do que os personagens que eles representam. Os filmes não têm nenhum Tom Jones, nenhum Raskolnikov, nenhuma Natasha.” Mais adiante, porém, Farber ressalta a vantagem da movimentação da câmera, de sua “fluidez”, e faz um elogio a Hitchcock por se interessar mais pelo comportamento dos personagens do que pelo enredo propriamente dito. Eu também tenho pensado muito em Hitchcock. Quando um filme como Avatar é exaltado ora porque “mostra como a humanidade se afastou da natureza” ora porque “cinema é diversão”, tipo montanha-russa, não resta muito a fazer senão lembrar gente como Manny Farber e Alfred Hitchcock.

A ARTE DO JORNALISMO

Muitas pessoas vêm comentar comigo Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff em cartaz nos cinemas. O filme é declaradamente afetivo e nem por isso deixa de ouvir as pessoas com quem Francis brigou de modo virulento. Peca ao dar tanto espaço para as cenas de gravação, em que Francis soltava palavrões ou cantarolava; causam muitas risadas, pelo que me contam, só que também reforçam seu lado folclórico, quase anedótico. Por isso há uma diferença entre imitar Francis e ter sido influenciado por ele, ainda mal entendida 13 anos depois de sua morte: Francis era inimitável e incontornável. Converter-se em personagem foi uma maneira de sobreviver, não uma decisão sem dores, cínica; ele queria ter sido um grande ficcionista, por exemplo, e é um dever afirmar que não foi. Mas o que ele tinha a dizer está lá, e com o filme Hoineff ajuda a apresentá-lo a novas gerações.

UMA LÁGRIMA

Para J.D. Salinger, um tremendo escritor, morto aos 91 anos. A fama alcançada com O Apanhador no Campo de Centeio o afugentou, por motivos que talvez nunca saibamos com certeza; talvez ele tenha rejeitado ser tratado como um defensor da adolescência contra o “mundo dos adultos”. Mas qual o problema de não ter escrito muito mais? Sua obra, pequena como é, tem uma prateleira especial no século 20, como a de Rimbaud no século 19. Suas Nove Histórias são formidáveis na fusão de ironia e lirismo, com uma espécie de realismo sugestivo que só ele e poucos mais – como John Cheever, mas mais amargo – sabiam fazer. Lê-lo é vê-lo.

POR QUE NÃO ME UFANO

E Zelaya saiu de Honduras com o rabo entre as pernas, deixando a diplomacia brasileira na solidão. O golpe de Micheletti não foi reconhecido por ninguém, mas ninguém tampouco acreditou que Zelaya pudesse voltar para jogar o jogo democrático. Entre um golpista amparado por algumas instituições e um candidato a golpista desamparado por sua própria causa, o melhor mesmo era ficar com o novo presidente eleito, Porfírio Lobo. Mas o Brasil não assinou embaixo. Ficou mal.