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| fonte: O Estado de São Paulo |
28 de fevereiro de 2010 |
Num país onde a palavra “liberalismo”, com ou sem o prefixo “neo”, virou quase palavrão ou sinônimo de alguém a favor da ganância desmedida do mercado financeiro, a reedição do livro de Marco Aurélio Nogueira, O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política, pela editora Paz e Terra, tem muito valor. Ainda mais porque estamos no Ano Joaquim Nabuco, em comemoração ao centenário de morte do grande escritor e abolicionista nascido em 1849. Há 25 anos, quando publicado pela primeira vez, o livro foi um marco nos estudos nabuquianos ao mostrar como sua trajetória intelectual zigue-zagueou de acordo com as curvas da história brasileira daquele período fundamental – jamais por oportunismo, sempre por honestidade.
O livro nasceu de uma tese de doutorado apresentada na USP em 1983, diante de uma banca que tinha nomes como Raymundo Faoro, o autor de Donos do Poder, que assinou o prefácio da primeira edição. Embora utilize métodos e conceitos associados ao pensamento marxista, como os de Antonio Gramsci (ao definir Nabuco como um misto de “intelectual orgânico” e “tradicional”) e Roberto Schwarz (“ideias fora de lugar”, originalmente uma expressão do conservador Oliveira Vianna), o ensaio de Nogueira quase sempre se concentra no esforço de compreender o pensamento de Nabuco, vendo nele uma consistência rara em intelectuais e sobretudo homens públicos brasileiros de qualquer tendência. Nogueira não esconde sua admiração pela figura.
O desafio era entender as diversas fases das opiniões de Nabuco sem deixar de ver suas continuidades. Essa recusa ao esquematismo abriu caminhos para estudos posteriores, com destaque para o de Ricardo Salles em 2002, Joaquim Nabuco – Um Pensador do Império. Na apresentação da segunda edição, Nogueira se refere a uma divergência entre eles: Salles vê Nabuco mais como intelectual autônomo em relação às posições de classe; Nogueira o considera “orgânico” por ter articulado um movimento da sociedade que se modernizava em torno da campanha abolicionista. Mas ele também é o primeiro a diminuir o peso dessa divergência: os dois estudos observam Nabuco como um intelectual interessado na questão da cidadania e das reformas para a consolidação da nação.
Essa é a grande virtude de seu livro. Nabuco não é lido simplesmente como um escritor que crê no livre mercado, nas ideias econômicas de um Adam Smith, mas como um liberal no sentido mais amplo da palavra, com suas implicações filosóficas e políticas. Nabuco criticava o excessivo intervencionismo estatal na vida brasileira e o fazia pelo ângulo das preocupações sociais. Sua luta pela abolição tinha em primeiro lugar uma dimensão ética, humanista (“dignidade humana”); em segundo, procurava o tempo todo ressaltar a importância de não ser apenas uma lei, mas um processo de integração de todas as camadas ao processo civilizatório (“expansão da democracia”). Daí o subtítulo do livro, As Desventuras do Liberalismo, que bem poderia ser o título. Para dizer o mínimo, Nabuco não viu seu projeto se realizar na íntegra.
Nogueira enfrenta também as oscilações intelectuais de Nabuco. Republicano quando jovem, monarquista quando abolicionista e conservador quando diplomata, ele foi uma personalidade complexa; não por acaso, como seus contemporâneos Machado de Assis e Euclides da Cunha, tem sido apropriado por interpretações de tendências díspares, não raro nos extremos do espectro ideológico. Nogueira o define corretamente como um “liberal conservador”, ou seja, alguém que defende a democracia capitalista temendo rupturas e zelando pela moral estabelecida, de base católica e esteticismo aristocrático, à qual dá vazão em livros como Minha Formação e Pensamentos Soltos. Por isso optou por defender a monarquia no momento em que mais era atacada pelos republicanos. Como tantos em sua época, achava que só o regime de Dom Pedro II poderia manter a unidade nacional de tamanho território.
O livro, de certo modo, dá pouca ênfase aos aspectos conservadores de Nabuco. Por usar conceitos como “revolução burguesa”, que no Brasil teria ocorrido sem burguesia nem democracia (então o que era?), tende a ver em Nabuco um representante da classe média moderna que ainda demoraria a tomar conta do curso histórico. Mas ele era uma voz ambígua nesse ponto. O problema dessa “elite” não era se dizer liberal num regime de oligarquias; era não ver que seu discurso sobre “ordem” e “conciliação”, sem confronto claro e direto com as forças da Igreja e do Exército, traía um medo da modernidade. Veja os protagonistas de Machado: sua mentalidade é tudo menos liberal; é paternalista e religiosa à toda prova.
É isso também o que explica que no fim da vida Nabuco tenha se entendido com a República Velha e, como embaixador em Washington, aderido ao “pan-americanismo”, que na visão de Nogueira era uma submissão à doutrina imperialista dos EUA. A tônica de Nabuco era no “pan”, era na harmonia continental. Em seu liberalismo conservador não havia muito espaço para grandes atritos e saltos; tudo deveria ser gradual, por meio da persuasão, sem ousadias estruturais, à maneira de tantos líderes brasileiros até o presidente Lula. Mas Nabuco tinha ouvidos apurados para o chamamento da história, e em tudo que fazia prezava sempre em primeiro lugar a liberdade dos indivíduos.
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