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| fonte: O Estado de São Paulo |
07 de março de 2010 |
Hoje, véspera do Dia Internacional da Mulher, revelamos uma conversa entre as duas maiores personagens da literatura brasileira, que não à toa estão nas duas maiores obras-primas da literatura brasileira. Pouca gente se dá conta de que Capitu e Diadorim são quase contemporâneas, pois a personagem de Machado em Dom Casmurro nasceu em 1843 e morreu aproximadamente em 1881 ou 1882 e a de Rosa já era uma jovem jagunça em 1896, única data citada em Grande Sertão: Veredas. Mas o encontro aconteceu depois que foram “estudar a geologia dos campos santos”, na frase machadiana, ou ficaram “encantadas”, na de Rosa.
Capitu – Sempre quis conhecê-la, Diadorim. Achava que você fosse mais alta, mais forte, sabia? Bobagem minha.
Diadorim – Nunca precisei ser alta e forte para enfrentar os homens. Eu é que não sabia que você era tão alta e forte.
Capitu – Hoje está meio fora de moda, né? No meu tempo, porém, não tinha um homem que não olhasse para mim nas ruas.
Diadorim – Moda não me importava, você sabe. Até que eu gostava de passar uns perfumes quando tomava banho de madrugada, longe das tropas. Mas você sempre foi chegada a esses salamaleques, joias, vestidos, bailes...
Capitu – Se nós duas não tivéssemos morrido tão jovens, você mais jovem ainda, eu ia levá-la para passear pela rua do Ouvidor e duvido que resistisse. Por sinal, que coincidência que a gente se conheça neste Dia da Mulher.
Diadorim – Ora, não vejo muito sentido nisso, não. Dia de mulher é todo dia; todo dia as mulheres de hoje precisam defender de novo os direitos que já são nossos há muito tempo. Esses cabras são fogo.
Capitu – É verdade. Eu mesma: até hoje, quando falam de mim, é como se eu fosse ou inocente ou traidora. Os homens só conseguem imaginar as mulheres de um jeito ou de outro. Virei uma charada mundial!
Diadorim – Minha situação não foi diferente. Agora, como você aguentava aquele marido? Eta homem frouxo, sô!
Capitu – É que o Bentinho era tão apaixonado por mim, e me prometia uma vida tão boa. Meu erro foi achar que eu ia controlar tudo, que ele ia amadurecer aos poucos. Mas ele era um eterno adolescente, tanto que precisou escrever um livro sobre si mesmo e ainda assim continuou sem se conhecer... De quebra só me pôs falando absurdos sobre “coincidências divinas”. Ele era o primeiro a acreditar nessas coisas!
Diadorim – Mas pelo menos a gente vê ali que era um covarde. No sertão, esse aí não durava nem dois dias.
Capitu – E olhe lá... Mas confesso que queria que tudo tivesse sido diferente. Tive de ser “mais mulher do que ele era homem”, como ele mesmo reconheceu no livro.
Diadorim – E eu tive de ser menos mulher... Não tive escolha; meu dever era com meu pai, eu tinha de ser varão para que ele continuasse comandando tudo. Não fosse por isso, teria dito a Riobaldo quanto o amava também. Aquele sim era homem, viril e gentil, Tatarana na hora da guerra e quase um menino na hora em que ficava me olhando, quase um passarinho. “O sol entrado”, não é bonito isso?
Capitu – Bentinho não fica muito atrás: “Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.” Você falando assim, parece que Riobaldo era uma mistura de Bentinho com Escobar, se bem que Escobar sabia ser doce quando queria... Mas você era sol e era lua também, como eu. Foi por isso que disse que nossa situação era parecida?
Diadorim – Foi. Tem gente por aí que acha que Riobaldo não era macho, porque ficou apaixonado por Reinaldo, não por Diadorim. Ele era, sim! É que era um homem mais sensível que aquela jagunçada tosca. Sabia ler, escrever, sabia admirar as coisas bonitas. Ele via Diadorim debaixo de Reinaldo.
Capitu – E ele sofreu muito, não sofreu? Bentinho não via nada porque não sabia ver. Mas imagino um jagunço sentindo atração por outro, sem saber que na verdade era uma mulher – e só sabendo depois que você morreu. “O diabo não existe, por isso é tão forte.”
Diadorim – Ou “Deus é o poeta, a música é de Satanás”... A nossa história é uma tragédia ainda maior que a sua. Ele não podia ver a verdade; eu não podia contá-la. Mas minha vida não teria sido nada sem ele. Quando li o livro, senti que ele pensava da mesma forma.
Capitu – A verdade é que a gente deixa os homens bem confusos. O problema deles é que demoram a perceber as diferenças. Depois se desiludem quando elas aparecem.
Diadorim – E nós percebemos muito rápido, e mesmo assim nos iludimos também. Foi bom aprender com eles a ser mais direta, a tomar iniciativa.
Capitu – Eu sempre tomei iniciativa. O problema é que tinha de fingir que não tomava. Minha vida toda tive de esconder o que sentia.
Diadorim – Eu também, nem preciso lembrar.
Capitu – Hoje não é muito diferente. Mas, sabe, sinto inveja dessas mulheres que podem trabalhar e votar e passar cantadas...
Diadorim – Melhorou muito, graças também a esses homens que escreveram nossa história. Como diz o meu, sertão é dentro da gente; mas talvez hoje existam mais veredas. Caminhar sempre dá trabalho.
UMA LÁGRIMA
José Mindlin deixa pelo menos um legado tangível – a parte da biblioteca que, depois de muito esforço, doou para a USP – e um intangível, seu amor pela leitura, que era tudo menos professoral. Precisamos de mais gente falando sobre os livros por seu valor afetivo, pelo prazer que trouxeram, sem medo da primeira pessoa, e menos pseudointelectuais com seu papo sobre “burguesia”.
CADERNOS DO CINEMA
O filme Educação, de Lone Scherfig, é justamente sobre o conflito entre o mundo que vemos nos livros e nas artes e o mundo real. Jenny (Carey Mulligan, talentosa e muito bem escolhida por seus traços e modos que variam do juvenil para o adulto) quer e consegue o gosto do “grand monde”, em contraponto à vidinha sem cultura e lazer de seus pais, moralistas e interesseiros. E também tem o gosto da desilusão, sem o qual essa formação não se completa. Por mais previsível que seja, tudo é conduzido com muita sensibilidade, em cima do roteiro de Nick Hornby, e não saímos do cinema achando que mais uma vez tentaram nos impingir a mensagem conservadora do lar como refúgio.
Carey é uma das indicadas para o Oscar que será entregue hoje. Mais uma vez a academia americana está diante de seus dilemas: premiar o marco de tecnologia e bilheteria que é Avatar ou o filme bem mais adulto e menos esquemático que é Guerra ao Terror? Essas têm sido as tendências principalmente desde os atentados de 11 de setembro de 2001: os filmes de fantasia e os de tom documental. Os primeiros vencem com muito mais frequência. Já um filme livre e irônico como Bastardos Inglórios tem chance bem menor.
O TEMPORA, O MORES
Perguntei na semana passada “onde vamos parar?” (e não aonde”) nessa onda de moralismo nos esportes, nas artes e na política. A era das celebridades virou também a era de patrulha das celebridades. E não é que o Conar proibiu a propaganda da cerveja Devassa com Paris Hilton? Se propaganda de cerveja não pudesse aludir à sensualidade feminina, nenhuma seria autorizada. E eu poderia citar centenas de filmes e programas muito mais apelativos do que Paris Hilton ou sua dublê trançando pernas de vestido preto num sofá. A única razão por que não cito, além da falta de espaço, é para não dar ideia aos censores...
POR QUE NÃO ME UFANO
O talento para mentir, omitir e/ou distorcer das nossas autoridades não tem limites. É assim no mundo todo? Mas no Chile, depois do terremoto, o governo logo tratou de pedir desculpas porque não havia dado confiança aos alertas emitidos antes. No Japão, há até os que se suicidam (não estou sugerindo nada...). Na Inglaterra, o sujeito tem de devolver os tostões, mesmo que sejam míseros desviados para uma piscina no quintal. Aqui, como em outros países subdesenvolvidos, ele diz que não fez ou não sabia ou, quando flagrado da maneira mais escancarada, pede desculpas para levar punição melhor, ciente de que nossas leis e Justiça são bastante lenientes com quem tem poder e dinheiro (foros privilegiados, prisões especiais, etc. e tal).
O PAC ia ser uma revolução na infraestrutura brasileira, mas os atrasos das já tímidas obras em portos e aeroportos chegam a 41 meses (e faltam apenas 51 para a Copa de 2014). José Dirceu disse que recebeu de Nelson dos Santos R$ 20 mil durante 31 meses e, portanto, “não foi dinheiro fácil”, sem nos explicar qual é seu conhecimento técnico em fibras ópticas e sem mostrar os relatórios que qualquer consultor deve preencher. E a Prefeitura de São Paulo conta que fechou albergue por falta de segurança, mas não sabe explicar por que o número de sem-teto aumentou 4 mil em nove anos.
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