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| Anselm Kiefer em meio às ruínas |
| fonte: Gazeta Mercantil |
03 de abril de 1998 |
Basta você percorrer qualquer bienal, em qualquer parte do mundo, e vai notar que a maioria das pinturas, quando há pinturas, traz um título em comum: "Sem título". Aí você olha de novo para a tela e vê um arranjo (nos herdeiros do Minimalismo) ou desarranjo (nos do Expressionismo Abstrato) de cores e formas sem qualquer referência explícita ao mundo exterior. É uma espécie de autismo assumido. Se alguém usa figuras, é no esquema da Pop Art: assertivo e gráfico. Em meio a esse festival de falta de originalidade, um nome se ergue: o do pintor alemão de origem judaica Anselm Kiefer, 52 anos. A exposição de suas obras que o MAM-SP apresenta no momento é uma confirmação de que Kiefer é mesmo, na frase do crítico Robert Hughes, o melhor pintor de sua geração. Não que isso signifique muito, dito assim. Mas certamente Kiefer será assunto daqui a bons anos, quando a geração 80 não passar de um rótulo curioso nos livros de história da arte, dentro do capítulo "Como impressionar o mercado", e ex-estrelas como Julian Schnabel já estiverem sugadas pelo buraco negro da posteridade. O que Kiefer conseguiu converter em idioma estético foi um recurso formal de que seus contemporâneos usaram e abusaram, deixando vasta prole na mídia atual: a textura. Ele usa areia, chumbo, fios, palha, carvão, cartolina, tecido, ferro, etc. em suas superfícies, carregadas de tinta (a óleo e/ou acrílica, não raro com xilogravura também), distribuídas de forma gestual mas não caótica, coerente mas não homogênea. Usa emulsão, verniz e cola para organizar esse material, deixando aqui e ali a tinta escorrer, o carvão quebrar, a palha descolar. Acrescenta objetos ou fragmentos de objetos depois, numa tática aparentemente arbitrária, como cacos de porcelana, placas de metal e outros. O resultado é uma pintura em craquelê, quase apontando para sua autodestruição, e uma superposição de camadas em atrito, carbonizadas, sujas, ruidosas. Uma textura de Kiefer é imediatamente reconhecível. E o espectador não precisa de mais nada. Eis uma pintura que fala de derrocada e ressurgimento, de ciclos vitais em fase de transição, a um passo do mórbido. O tema central de Kiefer não é uma civilização em ruínas, mas a idéia de uma civilização em ruínas - a idéia germânica, mítica, romântica, egocêntrica, vernacular, cuja última expressão coesa está no pensamento de Heidegger. Em Kiefer não há congruência entre o ser e o tempo; tudo tende ao corroído e disperso. Por isso ele parte de imagens tradicionais do Romantismo alemão - as paisagens de pedra carregadas de solidez mitológica - e as queima, rasga e polui, literalmente falando. Há várias referências a mitos em sua exposição - mitos gregos, egípcios, hebraicos, mitos de todo tipo - e eles parecem alertar a todos que o heroísmo nacionalista não é privilégio da Germania. Kiefer costuma também escrever frases sobre as pinturas, em geral as palavras do título da própria tela, para acentuar sua crítica à crença humana no símbolo, na ancestralidade, na letra da lei. Mas não o imagine um filhote de McLuhan, descrente do verbo e do mito. Kiefer usa fotografias, frequentemente, para também ironizar a arte que se pretende fotográfica, descritiva, puramente objetiva. Sua pintura vive nesse limbo - entre o mitológico e o real, o verbal e o visual, o entrópico e o harmônico - e não finge estar em paz. Daí a força de suas duas grandes telas sobre São Paulo, cidade que fotografou em outra visita e que mostra, pela força da textura, como um mundo em constante recriação, sempre na tangente da auto-anulação. Desse embate entre figura e textura Kiefer extrai sua arte. Você não precisa entender as alusões para captar a sensação central do quadro, seu sentido geral. Kiefer não se basta na superfície. Nem sempre essa aposta na textura dá resultado, ainda mais quando se trata de um artista que anda no fio da navalha moral, envolto nas névoas de um passado de triste recordação. É difícil. Kiefer é muitas vezes gratuito e redundante, especialmente quando decide adicionar alguma peça sobre a superfície, como o avião que grudou sobre a imagem de São Paulo. Mas tratar a textura como signo, como parte integrante do significado da pintura - não da forma harmonizadora que se tem em Matisse ou Warhol, e sim perturbadora -, é seu achado e legado. (Um pintor brasileiro, Daniel Senise, está entre os que entenderam a grandeza de Kiefer.) O ser humano quase não aparece em suas pinturas, mas é impossível não se encontrar nelas, ainda que amargas, quase moralistas. Uma cultura não existe sem mitos. Fica mais difícil, depois de Kiefer, acreditar em renascer das cinzas. Mas pelo menos sabemos que ruínas não são coisas do passado.
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