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Aforismos sem juízo
"O desejo é sempre a primeira e a última prova de amor."

     



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Destinos danados
fonte: Entrelivros 01 de setembro de 2005
Se você leu Dois Irmãos, de Milton Hatoum (2000), eleito em enquete recente do Correio Braziliense como o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos, e sentiu o desencanto vindo da desagregação daquela família de imigrantes libaneses em Manaus, Cinzas do Norte vai surpreendê-lo: o desencanto é mais agudo ainda. O novo romance de Hatoum parece adequado aos tempos sombrios dos últimos cinco anos, não só por atentados terroristas em capitais ocidentais, mas também por estelionatos eleitorais em território nacional. Quem procura um norte só vai encontrar cinzas; quem quer fugir para a cor local só vai achar a melancolia universal. Hatoum constrói para o leitor um mundo que se esfarela por todos os lados.

Em Dois Irmãos entramos num microcosmo rachado entre os gêmeos Yaqub e Omar, de temperamentos opostos, e o livro extrai sua força da narração feita pelo agregado da casa que vivencia o afastamento entre ambos. Em Cinzas do Norte a história contrapõe duas famílias, uma rica e a outra pobre, e os pontos de vista se multiplicam à medida que a história vai revelando hiatos e reversões. Se o romance anterior tinha o poder intrínseco ao drama do núcleo familiar, o novo seduz o leitor pela costura oculta, pelo mosaico de desencontros. Em Dois Irmãos vemos uma solidez desmoronar. Em Cinzas do Norte mal entramos e a sensação fragmentária se instala; não estamos diante de uma ordem que passo a passo implodirá, e sim de uma desarmonia vigente. A trama de Dois Irmãos tinha maior energia intrínseca, mas em Cinzas do Norte Hatoum deu mais vazão à ironia e à amargura.

Os personagens são patéticos, desgraçados, são úmidos e viscosos como a natureza amazônica; nem por isso deixamos de nos sentir em suas peles, de partilhar sua dor e impotência. Isso é o que só grandes escritores podem fazer. Hatoum também abre mais espaço para a descrição de exteriores, embora seja por excelência um escritor intimista, e tal combinação reafirma sua qualidade rara na literatura brasileira, tradicionalmente polarizada em tais abordagens. Ele capta o clima e a topografia de sua região, mas não é um regionalista; ao mesmo tempo, cria uma galeria de personagens com profundidade psicológica, sem fazer literatura urbana. Como Graciliano Ramos ou Juan Carlos Onetti, seu quadro vai do meio-ambiente ao vazio da alma, fundindo o social e o existencial.

Não por acaso a epígrafe é de João Guimarães Rosa: “Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares”. E não por acaso seu personagem principal se chama Mundo, de Raimundo, um jovem artista visual que nasce e cresce na Amazônia e dela parte para Alemanha e Inglaterra, mais para perder o mundo do que para ganhá-lo, mais rima do que solução. O narrador, Lavo, advogado que sabe que nunca vai deixar sua cidade, o conhece do Colégio Dom Pedro II, onde Mundo era amolado pelos colegas por desenhar o tempo todo e ser filho mimado de mãe endinheirada, Alícia, casada com Trajano Mattoso, ou apenas Jano, um empresário que produz juta, borracha e outras mercadorias para exportação na Vila Amazônia, em Parintins. A mãe de Lavo, Raimunda, morreu quando ele era pequeno, e quem o cria é sua tia Ramira, uma costureira que se mudou do Morro da Catita para a cidade, no bairro conhecido como Vila da Ópera. O irmão de Ramira, Ranulfo, o tio Ran, é outro desses personagens machadianos de Hatoum, um desocupado, um “cigano” que vive entre farras e livros e não quer trabalho nem responsabilidade, embora queira dinheiro e mulheres.

É no atrito entre essas duas famílias de classes sociais distintas que a trama desliza, entre idas e vindas, dúvidas e lembranças. Hatoum, cada vez mais hábil em sua técnica narrativa, superpõe três planos: a história contada em primeira pessoa por Lavo, as cartas enviadas a ele por Mundo e o relato enviado por Ranulfo a Mundo. Ranulfo, logo sabemos, foi apaixonado por Alícia, a qual preferiu se casar com Jano em busca de ascensão social, e em reação ele chegou a se casar por alguns meses com a irmã de Alícia, Adalgisa; mas Ranulfo e Alícia continuaram a ser amantes. Como em Dois Irmãos, há um mistério sobre paternidade, cujo desfecho só conheceremos no final; isso, porém, não significa que o valor do romance esteja nesta revelação. O que Hatoum faz como nenhum outro ficcionista no Brasil atual é descrever e sugerir as reações de cada personagem a essa situação e aos episódios. Desses conflitos e ignorâncias é que as implicações vão se ramificando, numa riqueza ímpar.

Entre os personagens está também Arana, um artista de rua, espécie de Frans Kracberg em versão mascate, com quem Mundo toma aulas numa ilha do rio Negro. Mundo é um rebelde e odeia Jano, odeia sua pretensão de “plantar a civilização na Amazônia”, pregando disciplina e religião e reprimindo a índole artística de Mundo, para o que se aproxima de Lavo. Como narrador, Lavo, cindido entre o amigo criador e e o magnata construtor, é alguém que tateia em busca dos fatos assim como nós, leitores. Em sua Amazônia convivem os mais diversos tipos: caboclos, japoneses, índios, portugueses, etc. E a vemos se transformar profundamente entre os anos 50 e os anos 80, atravessando o regime militar entre desigualdades e violências, manipulada por empreiteiros e militares como o coronel Zanda, que destrói a história de Manaus com sua “mania insana de modernização e reforma urbana”.

O estilo de Hatoum tem a elasticidade e o frescor para dar conta dessa história. É um texto fluente, de parágrafos curtos, e pontilhado de termos locais, como nomes de árvores e lugares e costumes, especialmente alimentares (o livro menciona tambaqui, cupuaçu, tartaruga, jaraqui, pupunha e diversos outros). Em algumas cenas, faz pensar em outros escritores, como Raul Pompéia naquela em que o presidente de uma Associação Comercial exalta aos berros um marechal sem perceber que a mulher o belisca para que poupe os ouvidos alheios. Jano também é satirizado: como tantos ricos brasileiros, vive de explorar os miseráveis com um escambo desigual, enquanto freqüenta concertos só para se exibir, faz boa figura com ações de filantropia e paga por “pistolões” entre as autoridades políticas e judiciais. Os índios estão longe dos heróis rousseaunianos que costumam ser na ficção brasileira: são supersticiosos (acham que dentes de boto enrolados no pescoço curam diarréia) e infantis (um dia rezam, no outro não demonstram fé) e bebem muito; ao mesmo tempo, são vítimas do progresso selvagem, que lhes dá subempregos e, ao desmatar sem critério, doenças como leishmaniose (“o inseto fura a carne que nem broca. Até o osso”). O Festival de Parintins também aparece em toda sua criatividade, mas Jano comenta que os caboclos, por causa dela, ficam meses sem trabalhar.

A questão do conflito entre o Brasil supostamente desenvolvido e o “profundo”, novamente, ganha camadas de ambigüidade em Hatoum. Mundo é um artista revoltado que prefere passar o tempo com os pobres, para desespero de Jano, enquanto Alícia sonha viver em Copacabana, para onde vai todas as férias para comprar grifes, o que não a impede de ser infeliz e se entregar à bebida. Lavo chega a acreditar que Jano – nome do deus romano de duas caras, responsável pelo portão dos deuses que se abre ou fecha aos humanos – é um “elo entre esses dois mundos”, mas o tempo lhe mostra outra realidade. Mundo, por sua vez, se espelha em Arana, que faz arte com “causa social”, objetos lindos como “peças marajoaras” que vende a preço de ouro aos estrangeiros; e também se decepciona.

A grande decepção é com o Brasil, com a injustiça social que tanto direita como esquerda só fazem fingir que combatem, e é nesse jogo de máscaras que os mitos se desintegram. É o Brasil que Mundo vê, por exemplo, ao norte de Manaus, onde a floresta foi devastada para dar lugar ao Novo Eldorado, que nada mais é que uma metáfora das periferias de grandes cidades de todo o país: “Mundo contou que no internato tinha pesadelos com a paisagem calcinada (...). Visitara as casinhas inacabadas do Novo Eldorado, andara pelas ruas enlameadas. Casinhas sem fossa, um odor medonho. Os moradores reclamavam: tinham que pagar para morar mal, longe do centro, longe de tudo... Queriam voltar para perto do rio. (...) Os moradores do Novo Eldorado eram prisioneiros em suas próprias cidades.”

Da metade do livro em diante, as frustrações, autodestruições, prisões e mortes se sucedem. Também a questão da arte diante dessa realidade é levantada. Mundo, afinal, quer que ela seja uma “desforra”, uma vingança contra o estado absurdo e cruel das coisas. Acha que se rebelar contra Jano e a Vila Amazônia é o caminho para isso, mas depois entende que a questão é mais complexa. Teme a arte como impostura, embora não viva sem ela, sem retratar em caricaturas angustiadas as pessoas que o cercam. Daí o auto-exílio, a partida para a Europa, onde percebe: “Arana bem que tentou inocular na minha cabeça o veneno de uma ‘arte amazônica autêntica e pura’, mas agora estou imunizado contra as suas preleções. Nada é puro, autêntico, original...” No entanto, procura uma voz própria e só encontra um fio, um fiapo, ignorante como é de sua própria origem. Sua acídia, num planeta que viu o muro de Berlim cair e a pobreza mundial prosseguir, é poderosa: “Por Deus, Lavo”, escreve numa carta, “o mau gosto assaltou o universo, e a uniformidade vai matar a alma do ser humano”. O que pode a arte contra essa realidade?

É Lavo que, de certa forma, faz o romance sobre a Vila Amazônia, beneficiado por não estar tão emocionalmente envolvido como Mundo, embora ao mesmo tempo sinta sua influência. Entre ele e Jano, Lavo oscila o livro inteiro, contando as verdades que vai descobrindo, num desfile de destinos danados, inclusive o da Vila Amazônia, a grande obra de nacional-desenvolvimentismo que termina vendida a um empresário de Taiwan, em vez de assumida por seu suposto herdeiro, Mundo. Antigos artistas contraculturais agora vivem de exportar madeira nobre e peixes ornamentais. Lavo procura fazer sua parte, advogando para “detentos miseráveis esquecidos nos cárceres”, à medida que o país volta à democracia. Mas “o lento retorno ao Estado de direito não acabara com muitos privilégios”, resume. As vidas de Jano, Ranulfo, Mundo e Arana se esgotaram em agonia ou cinismo, e o Brasil que sobrevive a esse ciclo histórico pouco parece ter feito para aproximar os mundos, para democratizar riquezas e direitos. O idealismo foi calcinado.

Tal sintonia com a realidade presente não significa que a arte de Hatoum se justifique por ela; seu próprio romance é uma reflexão sobre a insuficiência da ficção diante da história. Por isso mesmo, seus personagens e sua história são tão marcantes e ficam em nossa memória por muito tempo depois que o lemos. Mas não deixa de ser um movimento importante esse de Dois Irmãos até Cinzas do Norte: é como se o hiato entre os gêmeos, entre o farrista sedutor que se perde em Manaus e o calculista introvertido que faz sucesso apenas profissional em São Paulo, se mostrasse agora mais intransponível que nunca, sem nenhuma receita possível que possa iluminar a solução abrangente. Lavo faz o inventário de uma geração perdida, acuada, e a amargura ao final é eloqüente. Ao mesmo tempo, que alguém o possa fazer, sem se render à paralisia diante de tal complexidade, não deixa de ter valor afirmativo.

Hatoum se destaca entre os escritores brasileiros vivos por esse motivo. Não está preso a um naturalismo cinematográfico, como o dos herdeiros de Rubem Fonseca que empilham citações em ritmo de clip para captar o tal “atomismo urbano”; tampouco se dedica ao beletrismo sertanista, de alguns escritores que tiram de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa apenas a superfície lingüística. Também elabora melhor sua descrença da natureza humana do que um Carlos Heitor Cony, recusando ao mesmo tempo a estratégia dita “pós-moderna” de um Bernardo Carvalho ou mesmo Chico Buarque, em que o jogo entre ficção e realidade ocupa o primeiro plano, como se a metalinguagem fosse a única linguagem plausível. Hatoum convida o leitor para dentro de seu universo pulverizado, não joga os fragmentos em sua cara nem lhes dá verniz pedante. Seu texto parece narrar com serenidade, distanciamento, “understatement”, acontecimentos que pegam fogo. É sua mensagem de resistência.