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Aforismos sem juízo
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Ian McEwan, cirurgia do medo
fonte: O Estado de São Paulo 30 de outubro de 2005
Um romance de um autor inglês influenciado por escritores americanos como Saul Bellow e John Updike e por neurocientistas como o português Antonio Damásio. Esse é Sábado, de Ian McEwan, em lançamento na sexta-feira no Brasil pela Companhia das Letras. Conta a história de um médico que, num sábado de fevereiro de 2003, enquanto milhares de londrinos fazem caminhada de protesto contra a invasão anglo-americana do Iraque, vive conflito com um delinqüente e vê sua liberdade e seu conforto abalados. É uma reflexão muito bem escrita sobre como a história pode entrar pelas frestas de um lar num dia de descanso.

Nascido em 1948, McEwan é um dos grandes escritores vivos. É autor de romances como Amsterdã e Reparação, este uma obra-prima que veio divulgar no Brasil no ano passado. Na entrevista a seguir, feita por telefone na última terça-feira, ele conta que seu filho está namorando uma brasileira, elogia a tríade de grandes romancistas realistas americanos formada por Bellow, Updike e Philip Roth, critica a restrição às liberdades individuais pelos governos ocidentais e comenta a importância da literatura científica para a ficção atual.

O sr. escreveu que Saul Bellow tinha a habilidade de escrever sobre diversas classes sociais sem caricatura nem condescendência. O sr. não diria que, em Sábado, conseguiu fazer o mesmo?

Espero que sim, embora o núcleo da minha história seja uma família de classe média, bem educada, londrina, não a sociedade inglesa como um todo. O que ocorre é a irrupção de uma figura de outra classe, um choque entre ambas. Nesse sentido, realmente é algo que só tentei fazer nas minhas primeiras histórias e em Amor para sempre. Bellow talvez tivesse aquela habilidade por ser de uma família de imigrantes pobres de Chicago, mas acho que nós, escritores ingleses, não parecemos ter a mesma liberdade de nos movimentar por todas as classes.

Sábado discute questões muito atuais, como a guerra no Iraque. É mais difícil escrever sobre fatos tão recentes?

Acho que não. Comecei a escrever o romance no final de 2002, e a grande marcha contra a guerra, em Londres, foi em fevereiro de 2003. Achei que deveria deixar a história entrar. Como se fizesse uma fotografia de um dia singular no início do século 21. Mas apenas como pano de fundo. Escrevo 500 palavras por dia, não tenho como captar a velocidade e complexidade desses fatos. Daqui a 20 anos, talvez o 11 de setembro e o terrorismo islâmico não sejam mais temas presentes, e por isso mesmo quis abrir minha história a esses eventos de forma intermitente. Eles vêm e vão, não são eles que a definem.

John Updike diz que sua tetralogia Coelho se distingue por essa abertura à história, pela qualidade panorâmica, e menos pela elaboração literária.

E ele faz isso muito bem, principalmente nos três últimos. Coelho realmente foi um encorajamento para mim, a maneira como seus personagens argumentam sobre assuntos como a relação dos japoneses com os EUA, por exemplo. O importante, porém, é sempre manter a história um pouco fora também, para que os personagens possam respirar. Uma ficção nunca é puramente documental.

Alguns termos e temas científicos são freqüentes em sua obra. Em Sábado o protagonista, Henry Perowne, é um neurocirurgião. O sr. acredita que esse diálogo ajuda a enriquecer a ficção? Aqui no Brasil o sr. disse que a função da literatura é “investigar a natureza humana”.

Sem dúvida. Nos últimos 20 ou 30 anos, a ciência expandiu suas fronteiras para a questão da natureza humana, especialmente sobre o tema da consciência. Há nesses autores uma especulação muito interessante para romancistas, que traz outro ângulo, outra abordagem da natureza humana.

O sr. é leitor de neurocientistas como Antonio Damásio, Steven Pinker e Oliver Sacks?

Naturalmente. Damásio, em especial, é muito interessante. Eu o conheci há dois ou três anos e ele se revelou um ótimo interlocutor. Seu livro O Mistério da Consciência é muito inovador. Qualquer romancista deveria se interessar, por exemplo, pela questão da diferença entre emoções e sentimentos. Isso abre grandes possibilidades.

Falando sobre terrorismo e guerra, o sr. não acha que as pessoas estão se arriscando ao trocar liberdade pela idéia de segurança? E como o sr. viu a reação de Londres aos ataques em julho passado?

A democracia volta e meia é submetida a essas fases em que a segurança parece ser mais importante que a liberdade. Eu acho que os governos sempre querem mais poder, até porque não querem que aquilo aconteça de novo e eles sejam responsabilizados. Acho que temos de ser claros a esse respeito; é um debate doloroso, afinal não queremos que a tragédia se repita. Mas não faz sentido abrir mão de liberdade por muito tempo, por mais de um ano, digamos. Londres reagiu muito bem ao ataque. Na superfície, as pessoas estão tranqüilas. Mas há apreensão. O metrô, por exemplo, é um lugar muito vulnerável ainda.

O sr. esteve no Brasil para a Festa Literária de Paraty no ano passado. O que achou do País? Conhece um pouco de literatura brasileira?

Eu realmente gostei muito. Meu filho Gregory estava comigo e se apaixonou por uma brasileira, Ana Carolina. Passou quatro meses aí, aprendeu português. Depois ela veio passar um mês conosco aqui em Londres. Ele vai de novo no Natal, passá-lo em Uberlândia. Estamos nos sentindo muito ligados ao Brasil desde então. Li alguns escritores brasileiros, como Machado de Assis, de quem gostei muito, mas não posso dizer que seja um conhecedor.

Como o sr. vê sua geração de escritores? Martin Amis, Julian Barnes, Salman Rushdie, Paul Auster, todos são nascidos no final dos anos 40.

Eu me sinto um felizardo por ter contemporâneos como eles. Martin é meu amigo íntimo, eu o conheço há muito tempo; Julian também. Convivemos desde o início dos anos 70, quando nem éramos conhecidos como escritores. Não formamos uma escola, um movimento, nem temos tantas semelhanças literárias. Mas me sinto estimulado por eles e por seus livros.

Falamos em Bellow e Updike. E o que sr. acha de Philip Roth?

Eu diria que eles formam uma tríade. Eles realmente dominaram a literatura de seu tempo e marcaram toda a minha geração. Que Roth tenha ressurgido com tanta força nos últimos 10 ou 15 anos, com uma obra de tanto poder e ambição, é incrível. Eu diria que, dos três, ele é quem mais tem os “demônios da criação”. É sempre tão inquieto, tão brilhante.
Reparação, na opinião de muitos, é sua obra-prima. Briony, a personagem principal, é uma candidata a escritora que tenta ordenar o mundo, organizá-lo numa moldura moral. O sr. diria que esse é o grande desafio do escritor – não reduzir o mundo a certezas morais?

Sim, claro. Como escritor, tento fazer com que minha narrativa capture o fluxo caótico da vida, mas sem ser um romance caótico. Essa tensão sempre existe. No caso de Reparação, fiz dessa tensão um dos temas da história. A experiência humana é assim; não é uma completude, uma fórmula; é dinâmica e ambivalente.

O sr. também escreveu que Bellow escapou das “armadilhas formais do modernismo”. Mas ao mesmo tempo não falta na literatura contemporânea a energia inovadora do modernismo, sua mistura de gêneros, sua preocupação com as idéias? Por que não temos Prousts e Kafkas e Joyces hoje em dia?

A primeira pergunta é: será que os reconheceríamos? Acho que a literatura atual vive a tensão entre realismo, no sentido mais documental, social, como o de Jonathan Franzen, e a literatura mais fantástica, de um García Márquez, Rushdie, Angela Carter. Para mim, deve estar em algum lugar a meio caminho. O problema é que hoje é difícil uma voz quieta como a de Kafka, pois o escritor precisa fazer sucesso, vai a programas de TV, é parado na rua. Essas coisas eram completamente irrelevantes para as carreiras de Joyce ou Proust. Por outro lado, o modernismo se esgotou a si mesmo, bloqueando a inovação e caindo no maneirismo, principalmente nos anos 50 e 60. O realismo de um Bellow, elevado por um senso de estilo, de beleza verbal, foi um corretivo necessário.

Para onde ir, então?

Com o tempo, a literatura vai redescobrir essa importância das idéias. Tenho tédio a histórias que não vão além dos sentimentos. O escritor precisa aprender sobre seu mundo, digeri-lo e colocá-lo de volta em outra forma. Precisamos ser responsáveis, precisamos entender mais. Eu me interesso por romances que tenham inteligência crítica, em que o escritor parece saber mais do que eu sei e eu confie nele. É o “deep sea thinking” (pensamento de mar profundo) que Bellow dizia. Em Sábado faço como que pequenos ensaios, digressões integradas à narrativa, sobre os prazeres e as ansiedades da vida, sobre temas que vão de um programa de TV à religião. Talvez seja por aí.